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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Olhos nos Olhos


Ao meu amor, com verdade e gratidão.

 

 


      Olhos no espelho. Acostumara-se a contemplar o próprio reflexo com pesar. Não raro, ficava com pena da própria imagem. O pensamento viajava para longe, revisitando um passado repleto de erros e trazendo o amargo sabor do arrependimento. Os olhos vertiam inevitáveis lágrimas de uma vida fria e sem razão. Quando as lágrimas secaram, caiu em si. Precisava tomar alguma atitude, livrar-se de toda aquela angústia, antes que fosse tarde demais. Naquele breve  instante de perseverança e lucidez, uma voz ecoou em sua mente, como se alguém lhe aconselhasse:


“Coragem! Quebra esse espelho!
Deseje que o poder do amor o ajude a amar.
Saiba que sua imagem pode inverter
e sua vida pode melhorar”.

       Apagou a luz. No chão, cacos do espelho e dos pensamentos pessimistas que decidira estilhaçar. Estava no escuro, só, mas por pouco tempo. Mais do que isso, estava livre de toda a negatividade que não lhe permitia agir, sair da zona de conforto. Não mais perderia tempo lamentando-se pela imagem que o espelho lhe apresentava; a partir de então, seu olhar estava preparado para contemplar as mais belas paisagens e surpresas que a vida porventura trouxesse. E foi assim que livrou-se dos cacos e, em vez de limitar sua atenção ao próprio reflexo, passou a enxergar o belo em tudo que o circundava. Trocou o espelho pelas janelas. Incorporou pouco a pouco toda aquela beleza, desabrochou.
      E a escuridão finalmente fora rompida por uma luz tímida, mas capaz de alegrar os seus dias, agora que sabia a importância das pequenas coisas. A luz de um vaga-lume perdido, talvez, mas que providencialmente cruzara seu caminho, e que sabia que se fazia necessário, exatamente ali, naquele ambiente escuro. Um vaga-lume que não tinha asas, mas que esbanjava luz própria através do seu olhar sonhador. Olhos no espelho? Não mais! Dali em diante, seria sempre olhos nos olhos, como é de se esperar de um verdadeiro amor. 


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Criatura (im)Perfeita


"Tudo evolui; não há realidades eternas, tal como não há verdades absolutas".
  - Friedrich Nietzsche em "Humano, Demasiadamente Humano".

 

"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito".
- Fernando Pessoa.




       


      Não esperem que eu seja um anjo, nem me demonizem. Não pressuponham que eu vá compreender e aceitar tudo, tampouco tenham medo que eu seja tirânico e que faça julgamentos precipitados.  Não me subestimem, nem superestimem – não sou perfeito, mas também acerto muito na vida. Escrevo certo por linhas tortas, sem pressa, mas fazendo novidade a cada segundo. Aprendo e ensino dia a dia. Suscito a dúvida e encontro a resposta; tenho em mim o grito inaudível e o silêncio ensurdecedor.       
      Não queiram que eu me emocione, me apaixone, ame ou demonstre sentimentos facilmente, nem se surpreendam com minhas explosões de emoção inesperadas, evidentes em lágrimas, sorrisos, gargalhadas, olhares, arrepios, etc. Não esperem nada de mim; ao mesmo tempo, estejam preparados para tudo. Faço rir e chorar, acalmo e irrito. Levo a tempestade e a bonança por onde passo; tenho em mim a paz e a guerra.      
      Eu não sou um robô programado. Eu sou humano. Faço questão de ressaltar isso, com orgulho e fascínio. 
E o que sou, como sou, também depende dos outros humanos que vivem por perto. Para cada um deles, sou de um jeito, sei disso. Bom ou mau, racional ou sentimental, inocente ou malicioso, doce ou amargo, carente ou independente, esperto ou tolo, maduro ou infantil, puro ou pervertido, previsível ou surpreendente, feliz ou triste, sensato ou insano, sensível ou frio, simpático ou chato, frágil ou forte, herói ou vilão... nada disso é bem delimitado na personalidade de quem é realmente humano. Sou tudo, e sou nada também. Tenho em mim toda a essência humana.


“Humano”. Quer palavra que englobe em si mesma mais contradição e mistério do que essa?! 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Para Uma Obra de Arte Cujos Traços Ainda Serão Definidos Pela Vida




Qualquer cartomante charlatã
Nas linhas da minha mão logo lê
Que qualquer tentativa de fuga é vã
Porque meu destino certo é você


    



      E te contemplarei extasiado, minha caríssima obra de arte perfeita, representação impecável do pecado proibido que nossas vontades nos permitem. Nesse eterno instante, os mais singelos e cristalinos versos brotarão em minha mente, atravessarão todo o meu ego e sairão afinadamente cantados por minha boca, sempre ansiosa pelo teu sabor, pela tua doçura.
      Ainda que eu não conheça teu nome, teus traços, sei que haverá reciprocidade. Irás me admirar da mesma maneira, cuidarás de mim como tua mais valiosa obra. Enquanto pintura, ficarás alegrando minhas paredes, mas livre – sem molduras. Enquanto escultura, serás cuidadosamente colocada sobre o mais alto pedestal e polida com freqüência. Não importa que te considerem mero rabisco, uma obra fracassada. Estarei convencido do contrário, enxergarei muito além.
      Quanto ao nosso contato, será verbalmente indescritível. Nada haverá a ser dito; tudo e de tudo será sentido. Corpos nus, almas despidas. O simples atrito dos nossos corpos nos momentos de intimidade gerará fagulhas de infinito prazer e plena satisfação. Porque quando meu desejo é indomável, entrego-me de corpo e alma. Foi sempre assim. Fui sempre assim.
      Que o meu corpo, portanto, se faça farto banquete capaz de saciar todos os teus instintos. E que a minha alma se faça lago profundo para o teu mergulho interminável, no qual meu carinho será o ar que te salvará do afogamento.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O Que Não Cabe em Palavras





Ando diferente por dentro, estranho
Não sei ao certo o que me deixa assim
Deve ser o amor recolhido, suponho
Só sei que já não caibo mais em mim...





     Não tenho certeza se é o que chamam de amor; se tem nome, não sei qual é. Só sei que é capaz de me levar do inferno ao paraíso em frações de segundo, e vice-versa. Já provei do doce sabor do encanto gratuito e do amargo das frustrações; fico trêmulo sobre uma corda bamba, me arrepio diante da possibilidade de cair; ainda assim, insisto em me equilibrar nessa situação, porque se trata de um risco constante que me faz feliz. Pura contradição, pura convicção; pura plenitude de ser e sentir. Penso e sinto, logo existo.