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domingo, 19 de abril de 2015

O Menino que Caçava Vaga-lumes



    


  Com apenas cinco aninhos, o pequeno Juca já se revelava um sonhador. Logo que a noite caía, saía correndo pelo vasto quintal do sítio em que morava com os pais, à caça de vaga-lumes mais desatentos. Numa das mãos, empunhava uma redinha costurada pela mãe, Florinda, e amarrada a uma haste de madeira; na outra, trazia o seu potinho, que outrora comportava a saborosa geleia de amora preparada pela avó Guilhermina. O frasco agora tinha outra finalidade: abrigar os vaga-lumes que o pequeno capturaria em suas jornadas noturnas.
       E Juca, tão novo, pensava em tudo: o fundo do pote era forrado com folhas verdinhas de diferentes plantas do quintal; afinal, pensava ele, aqueles vaga-lumes deviam comer pequenas folhas para sobreviver, como faziam tantos outros bichinhos. Não secava o recipiente após lavá-lo, para que os insetos pudessem beber as gotículas de água que restavam no vidro. Por fim, a tampa era furada com a ponta de um espeto em brasa, para que lhes fosse possível respirar lá dentro. Mas era o pai quem manuseava o ferro quente, porque “criança, além de não poder mexer com coisa pontuda, não pode brincar com fogo, senão faz xixi na cama”! Era o que o “Seu” Joaquim dizia. E Juca não teimava, porque morria de vergonha quando acordava com o colchão todo molhado sob seu corpo.
       O garoto não podia se afastar muito da velha casa, porque os pais ficavam preocupados e deixavam-no de castigo. No entanto, logo nas redondezas o pequenino já se satisfazia: havia por ali vaga-lumes para todos os gostos! E lá ia ele, correndo de um lado para o outro e balançando vigorosamente a sua redinha. Na hora de colocá-los dentro do frasco, destampava-o com todo o cuidado, para que os cativos não escapassem. Ficava profundamente irritado quando, ao tentar aprisionar um novo, os demais fugiam e saíam piscando livremente pelo ar. Os pais riam entre si, lamentando pelos vagalumes, pobres vítimas da recreação do filho. 

      Quando indagado sobre o porquê de fazer aquilo, o menino não titubeava: “porque eles são lindos, e eu quero cuidar deles para sempre, ora! Vou ter toda a luz do mundo aqui, dentro do meu potinho! Com esses vaga-lumes, não preciso mais ter medo do escuro, porque, mesmo que a luz acabe, eles irão brilhar para mim”. Sempre que falava isso, o pai lhe advertia de que o mais importante seria manter bem acesa a luz que havia dentro do seu pequeno coração. Porque, segundo o “Seu” Joaquim, quem tivesse luz dentro de si, jamais ficaria no escuro. Mas Juca era muito novo para compreender aquilo e tinha coisas mais importantes para se preocupar: capturar mais vagalumes. Quanto mais aprisionava, mais apareciam! Estavam desafiando sua persistência, mas ele era incansável. E o potinho reluzia cada vez mais, como uma lamparina viva, para a satisfação do pequeno sonhador. “Um lindo espetáculo!”, dizia a mamãe, enchendo-lhe de orgulho.
       A alegria de Juca, porém, não durava muito. Ele adormecia, passava-se algum tempo, e, quando procurava novamente o seu pote para retomar a caçada, percebia que os vaga-lumes não mais piscavam; os coitados sequer se mexiam! Estavam mortos. E aí se iniciava um longo pranto, motivado pela profunda frustração de perder, de forma repentina, algo que lhe era tão valioso. A mãe ficava com o coração partido. E o pai, sempre firme, explicava que com as pessoas poderia acontecer a mesma coisa que ocorria com os vaga-lumes de Juca. Porque “quando a gente se sente preso de alguma forma, a gente perde aos poucos a nossa luz. Ficamos cada vez mais fracos, apagados, até o momento em que paramos de brilhar”. Esse ensinamento também era complexo demais para o entendimento do filho, que preferia deixar para pensar naquilo depois. Ele não podia perder tempo com essas coisas de adultos, tinha mais o que fazer: encontrar novos vaga-lumes; uns bem grandes e brilhantes, para que suas luzes não se apagassem nunca! E assim recomeçava todo o ciclo, que se resumia a uma esperança que dava lugar a uma alegria passageira; esta, por sua vez, posteriormente substituída pela frustração.
       O tempo passou e Juca foi para a cidade grande, onde iniciou seus estudos e começou a trabalhar. Trocou a redinha e o potinho de outrora por lápis, caderno e ferramentas. Esqueceu-se dos vaga-lumes. E estudou muito, por longos anos, galgando cada vez mais degraus rumo ao que ele concebia como seu sucesso pessoal e profissional. Isso fez com que também se afastasse de seus pais de forma gradativa. Eles provavelmente ainda viviam no sítio, mas aquela vida era pacata demais para o jovem que havia ganhado o mundo. O Juca sonhador deu lugar ao prático e calculista José Carlos, importante executivo de uma empresa consolidada no mercado.
       José Carlos, além de não mais ter notícias de seus pais, parou de contemplar e de sonhar com as coisas mais simples. Nunca estava satisfeito com o que tinha. Queria sempre mais. Estava cada vez mais preso a prazos, horários e a uma rotina impecavelmente organizada. Não podia falhar, em hipótese alguma. Não havia tempo para consertar eventuais falhas, nem para cultivar as amizades ou construir um amor sólido ao lado de alguém. Atraía muitas pessoas dispostas a isso, mulheres e homens com quem esbarrava nos corredores da empresa, mas se limitava a relações superficiais e efêmeras – a maioria fomentada por algum tipo de interesse –, tão somente para satisfazer suas necessidades fisiológicas. Não dispunha de muitas horas vagas e nem de paciência para conhecer alguém em profundidade e para conquistar eventuais pretendentes.
       O terno não podia estar sujo ou amassado, e os sapatos não ficavam sem graxa. A barba, sempre bem feita. A opinião dos outros era cada vez mais importante - não podia decepcionar a ninguém, tinha que corresponder a todas as expectativas e ainda mais: era preciso surpreender, sempre. Não podia extravasar demais, tampouco se mostrar deveras introspectivo. Sempre equilibrado, esse era o foco. Sóbrio, racional, discreto, ponderado. Chato. Eterno frustrado. Escravo da aprovação alheia, da mesmice e, sobretudo, do dinheiro. Como um vaga-lume sufocado, José perdia pouco a pouco a sua luz própria, e só ele não percebia. Estava imerso em trevas.
       E assim ele continuou, enquanto pode. Até o dia em que, saturado de obrigações, seu coração não suportou tanta pressão. Foi conduzido às pressas ao hospital mais próximo. Na fria maca sobre a qual repousava, José viu imagens dos momentos que viveu, dos mais recentes aos mais remotos. Naquele instante, toda a sua vida passou diante de seus olhos, de trás para frente, como num filme exibido ao contrário. Regressou ao seu passado. Por alguns segundos, José tornou-se Juca novamente. Sentia-se, outra vez, o menino sonhador que se contentava com alguns vaga-lumes piscando dentro de um pote de vidro. Havia mais tempo para sonhar? Sabia que não, e caiu em si. Sua realidade já era outra; seu corpo era outro, e perecia. Por mais que quisesse voltar no tempo e resgatar para si a infância feliz, todo o dinheiro que havia angariado nos últimos anos não seria capaz de realizar o seu desejo. Nenhum dos colegas de trabalho iria lhe oferecer ajuda; certamente estavam mais preocupados com a situação de suas contas bancárias.
       Lembrou-se dos pais. Adoraria que segurassem sua mão naquele momento e que cuidassem dele, como fizeram quando padeceu de catapora; mas Florinda e Joaquim não estavam mais ali. Eis que depois de tantos anos Juca entendia, enfim, que “quando a gente não é livre, vai perdendo a luz própria, até parar de brilhar de vez”. Era mais ou menos isso que o pai repetiu por diversas vezes durante sua infância. Sua luz se esvaía. E de que adiantava, afinal, ser um homem bem sucedido aos olhos dos outros, se para si mesmo estava apagado? De súbito, porém, voltou a se alegrar quando percebeu que outra luz invadiu o quarto de hospital em que repousava. Uma luz deveras forte e misteriosa, distinta de tudo o que havia visto até então, e que rapidamente se expandiu pelo cômodo. Ela o envolvia e acalentava como o toque gentil das mãos de seus pais, que há muito não sentia. Não sabia de onde vinha toda aquela claridade, mas estava disposto e pronto para entregar-se, diante da estranha convicção de que voltaria a brilhar quando se tornasse parte dela. Dessa vez, iria sem sua redinha e seu pote de vidro; estava de mãos vazias, sem desejo de aprisionar. No peito, uma única vontade: ser verdadeiramente livre. Assim, a felicidade também viria.
       Seria aquela a luz de infinitos vaga-lumes? Isso só o Juca iria descobrir.   



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Pérola Negra e o Marfim




Você não precisa passar fome para que se incomode com a desigualdade social e a consequente marginalização dos menos favorecidos. Da mesma maneira, não é necessário ser negro para ser contra o racismo, nem ser homossexual para se mostrar contrário à homofobia. Também não precisa ser uma mulher para repudiar o machismo. Para ser contra qualquer forma de preconceito, portanto, não é necessário ter sido ou tornar-se uma vítima direta dele. Você só precisa reconhecer que ele existe e ser detentor(a) de um pingo de senso de humanidade.


     Catarina, uma garota que apesar da pouca idade já demonstrava sede de viver, levava sempre consigo um sorriso de gente grande, generoso e inconfundível. Trazia nos olhos o brilho de uma alma inocente, preparada para amar sem moderação. Sua família não tinha dinheiro de sobra, mas sempre viveram com conforto e muita dignidade.
     Não era uma “moreninha”, como muitos costumavam dizer, como se este fosse um termo mais agradável aos seus ouvidos. Era negra, isso sim - e negra com orgulho! Reconhecia seu devido valor, bem como a relevância, a contribuição e os sacrifícios inegáveis dos seus antepassados para a formação da sociedade plural em que se via inserida. Por todos esses motivos, jamais negaria suas origens. Jamais menosprezaria a cor da sua pele. E razões para se orgulhar não lhe faltavam: a genética tinha produzido uma joia.
     Os traços fortes e exuberantes da sua face compunham um todo simétrico e harmônico. A meiguice dos seus gestos, a delicadeza ao andar e a intensidade do seu olhar eram o prenúncio da mulher encantadora que se tornaria. Tratava-se de uma verdadeira pérola negra.
     Logo que ingressou na adolescência, Catarina conheceu Alberto. O acaso conspirou para que fossem matriculados em uma mesma turma da escola. Ele, descendente de alemães, nasceu rodeado pelo luxo e acostumou-se a ter tudo o que queria antes mesmo de conseguir expressar em palavras a sua vontade. Era alto, loiro, branco. Branco como o marfim. Após poucos dias de aula, tornou-se o centro das atenções de um grupo de meninas da classe. Entretanto, foram a indiferença e a beleza generosa de Catarina que despertaram seu real interesse.
     O primeiro passo foi aproximar-se nos intervalos das aulas para conversar sobre matérias, colegas e professores. Depois de alguns dias, já se prontificava a carregar os materiais da garota e a acompanhá-la até a porta de casa. Estava apaixonado, sem volta. Após alguns meses de convívio e declarações recíprocas, ambos resolveram assumir o namoro.
     Pareciam feitos um para o outro: a mistura perfeita, peles que se complementavam, como Yin e Yang. Sol e lua, dia e noite, branco e preto; um casal de encher os olhos. Como mandava o protocolo, era chegado o momento de um conhecer a família do outro. Todos ansiosos: os dois apaixonados e seus pais. Assim, na data convencionada Alberto entrou na sala da sua requintada casa, de mãos dadas com Catarina.
     Os pais do garoto, ao examinarem da cabeça aos pés a sua tão famigerada namorada, não demonstraram qualquer empolgação. Pareciam incomodados, na verdade. Almoçaram todos juntos, sobre a mesma mesa, mas com um clima notoriamente tenso pairando no ambiente. A menina estava se sentindo deslocada, incomodada com o silêncio dos pais de Alberto e com os olhares que deles recebia. Bocas fechadas, mas olhos expressivos, que falavam por si. Olhos de desconforto, de reprovação, de aversão... de preconceito.
     Quando a sós, Catarina tentou desabafar com Alberto, que se esforçava para evitar o assunto. Tudo para não entristecê-la. Com o passar dos dias, entretanto, ela comprovou suas suspeitas por conta própria: surpreendeu-se ao ouvir adjetivos diversos sussurrados em outros cômodos, em alguns dos momentos em que se encontrava na casa do seu amor.
     “Escurinha”, “favelada”, “neguinha”... palavras banhadas em aversão povoavam as conversas que os pais do namorado tinham entre si, sem se preocuparem em controlar o tom de voz.  E por inúmeras vezes, procurando a amada depois de estranhar seu sumiço, Alberto a encontrou encolhida no chão, com a cabeça apoiada nas pernas e a face inundada. Lágrimas que nem pela tranquilidade dele a garota conseguia conter. Lágrimas de quem se sentia menosprezada por algo que era inerente à sua pessoa, que era parte da sua identidade, portanto impossível de mudar; e que nem deveria mudar, uma vez que não a fazia melhor ou pior que ninguém. Eram como lágrimas de sangue, do mesmo sangue de tantos outros negros que fora historicamente derramado ao redor do mundo.
     Catarina sentia, pela primeira vez e na própria pele, a dor lancinante do preconceito. Notava, então, que ser negra a tornava inferior aos olhos injustos e cruéis de alguns; mais do que isso, percebia que para estes a sua cor a tornava desqualificada para se relacionar com um garoto branco.
     Alberto estava completamente dividido. De um lado, o olhar outrora intenso da amada, agora perdido, sem brilho, vazio e encharcado. Do outro, a sua família, pressionando para que terminasse o namoro e abandonasse a garota. Porque ele encontraria qualquer menina que desejasse, alguma que fosse mais “compatível e apta a fazê-lo feliz”, como os pais costumavam dizer, ignorando que Catarina já conseguia fazê-lo transbordar de felicidade. Ameaçaram inclusive suspender qualquer auxílio financeiro para o filho, enquanto ele não colocasse um ponto final em seu relacionamento.
     E em dias que se seguiram, Catarina notou com enorme pesar o seu namorado cada vez mais distante. O garoto não tomava qualquer atitude, evitava tocar no assunto, parecia fazer vista grossa para o sofrimento que ela transpirava. Ele começou a faltar às aulas, aparecendo vez ou outra; procurava-a menos, demonstrava menos afeto... até o dia em que sumiu, definitivamente.
     Já com um mau pressentimento, a abatida garota criou coragem para fazer algo que há muito se recusava: voltou à casa de Alberto, para saber qual era a razão do sumiço do amado. Quem a atendeu foi a empregada, que trazia consigo um envelope e o entregou à menina aflita por respostas. Catarina, pressentindo o teor do que estava no envelope, agradeceu à empregada e virou-se, iniciando o retorno para casa. Com o coração disparado e ainda sem coragem para abrir a carta, sentou-se em um dos bancos da praça; no banco em que costumava sentar-se para trocar carícias por horas a fio com Alberto.
     Ansiando por encerrar logo a angústia que a consumia, abriu o envelope e encontrou uma mensagem, indubitavelmente escrita de próprio punho pelo seu amor. Nela, o garoto pedia para que jamais se esquecesse de todos os momentos mágicos que passaram juntos; reiterava por diversas vezes que ela tinha conquistado sua admiração, seu carinho, seu amor. Explicava que a família não aprovava aquela relação, impondo um afastamento que ele não desejava; todavia, não tinha forças suficientes para enfrentar as ordens de seus pais, tampouco para ver as lágrimas da sua amada frente à rejeição e menosprezo com que a tratavam. Ele não queria se posicionar a favor de um lado ou do outro. Eram amores distintos em confronto. Assumiu ser covarde, ainda dependente do auxílio material familiar, o que lhe orientava a respeitar a vontade dos pais. Confessou ter chorado enquanto redigia a carta, mas nem precisaria fazer tal consideração: em algumas palavras havia borrões, manchas sobre a tinta azul da caneta. Eram evidentemente os pontos em que as lágrimas caíram e mancharam o que estava escrito. Por fim, pedia perdão por ter saído da vida da amada de maneira tão repentina, supostamente desejando que ela encontrasse outro alguém que tivesse a coragem necessária para fazê-la feliz.
     Alberto tinha se mudado. Fora morar com uma tia em outra cidade, transferido para outro colégio. O marfim tinha virado pó, que o vento levou. Catarina estava só. Foi então a sua vez de chorar, de encharcar a carta. A princípio, sentiu raiva de Alberto. Raiva da sua inércia, da sua covardia. Questionou a veracidade do amor que ele dizia sentir, perguntou-se se não haveria algum outro motivo para a partida inesperada do namorado. Não conseguia entender, não fazia sentido; não naquele momento. Não conseguiria também perdoá-lo de imediato; não enquanto sentisse aquela dor aguda no peito ao se lembrar de todas as juras de amor, de todos os planos traçados em conjunto, e que agora pareciam meras palavras vazias jogadas ao vento.
     Revoltou-se também contra os pais do garoto – criaturas vis, pequenas, limitadas. Incapazes de permitir que o próprio filho fosse feliz! Estavam cegos pelo preconceito, não se permitiam ver a beleza que há em cada ser humano, independentemente de suas características físicas. Talvez notassem toda a doçura e profundidade de Catarina, se ao menos deixassem que a garota mostrasse os valores e qualidades que trazia em si. Mas não, ela não teve tempo para isso, já que de imediato a menosprezaram, diminuíram, prejudicaram – tudo pelo fato de ser negra. Não tinham argumentos válidos, razões verdadeiras para pretenderem afastar os dois namorados.
     Branco e negro não podem se misturar? Quem disse isso? Quem teria direito a julgar a vida e os sentimentos alheios? Quem em sã consciência ousaria deslegitimar o amor sincero entre duas pessoas, analisando de longe, e pautando-se em meras características superficiais dos que se amam – características essas que não fazem um inferior ao outro? Quem se presta a esse papel certamente ainda não conheceu o verdadeiro amor. Enchem a boca para falar que o mundo precisa disso, de mais amor, mas não o conhecem, não o respeitam.
     Tiraram de Catarina uma parte de seu encantamento pelo mundo; mostraram-na como as pessoas, quando pouco esclarecidas, podem ser insensatas, cruéis, extremamente preconceituosas. Tiraram-na também a oportunidade ímpar de viver uma história de amor puro e verdadeiro por conta da cor da sua pele – o que não deve, jamais, ser fator determinante do tratamento que se confere a outra pessoa. Somos distintos apenas em aparência, o que é perfeitamente natural; enquanto semelhantes em essência, entretanto, deveríamos estar todos caminhando lado a lado, e não menosprezando ou desfavorecendo alguns com base em características que fazem parte da sua identidade e não os tornam menos gente.
     O coração da bela garota negra estava marcado com profundas feridas; o tempo as cicatrizaria, bem como traria o perdão que Alberto pediu na carta. Entretanto, a memória não permitiria que se esquecesse de que há muitas pessoas vazias, prepotentes e mal resolvidas consigo mesmas, a ponto de ousarem interferir nos sentimentos alheios e de se julgarem superiores às outras. Disso não poderia se esquecer; é questão de sobrevivência em meio a um mundo que muitas vezes se mostra hostil e desigual.
     Teria Catarina a sorte de encontrar um novo amor, tão intenso quanto o que conheceu em seus dias com Alberto? Deixariam, enfim, que vivesse uma história intensa e feliz com quem viesse a se envolver emocionalmente? Eram essas mesmas perguntas que ela se fazia naquele instante, ao perceber-se sozinha, abandonada, tendo seu amor suprimido pelo preconceito alheio.

(CONTINUA)...

* Em tempo: neste e em todos os dias, enquanto eu viver, emanarei meu reconhecimento, apoio e aplausos aos negros e a todas as pessoas que se veem marginalizadas neste mundo ainda injusto e desigual. Aos que lidam com bullying, com preconceito, com desigualdade ou com qualquer outro tormento por conta do que quer que seja, e que mesmo assim se mantêm firmes, arriscando um sorriso aqui e ali: não desistam! Danem-se os julgamentos, concepções e ofensas alheias, de quem nada soma às suas vidas; preocupem-se apenas com a voz da sua consciência. Não se condenem, não se agridam, não neguem os impulsos e peculiaridades que suas respectivas identidades lhes impõem a manifestar nesta breve existência. A beleza do mundo está justamente na pluralidade, na diversidade – o que permite que eventualmente um alguém complemente outro alguém.


domingo, 12 de maio de 2013

A Encarnação do Amor Sem Limites


Dedicado à única rainha que reverenciarei até a morte.

     Em dias como este, a gente se dá conta de que nosso cordão umbilical pode até ter sido cortado logo após o parto, mas a ligação que ele estabelecia não é meramente física. Trata-se de um vínculo muito maior, que não se corta com o tempo, com a distância ou com qualquer outra adversidade que a vida venha a apresentar. E se por algum momento duvidamos de que existe amor sem limite, basta que nos lembremos de que na sombra de todo ser humano se reflete, luminosa, a imagem de uma mulher sem igual: a mãe.
     As mais belas palavras são semanticamente ineficazes para traduzir minha eterna gratidão a quem me protegeu e aguardou minha chegada por longos nove meses, e que ainda hoje me protege com o calor dos seus sinceros sentimentos. Senhora do tempo, fez-se insubstituível em meu passado, o é em meu presente e assim sempre será. Seu único defeito é ser mortal; todavia, me é eterna.
     Abdicou da própria vaidade ao perceber as alterações no corpo decorrentes da gravidez até o momento em que, em mais uma singela prova de amor, suportou as dores do parto. Dores intensas, presumo, mas proporcionais à alegria de que desfrutou ao sentir-me em seus braços,
todo frágil e assustado. Começava ali uma nova jornada de muitos sorrisos, lágrimas e amores recíprocos.
     Amamentou-me, aqueceu-me, acompanhou meus primeiros passos, ergueu-me e conteve meu pranto decorrente das inevitáveis quedas. Ouviu minhas primeiras palavras soarem como música para seus ouvidos, vibrou diante de cada uma das minhas conquistas pessoais, não economizando sorrisos e emoção. Quando precisou ser forte para me encorajar, secou minhas lágrimas. Quando não conseguiu, chorou comigo. Dessa forma, nunca se mostrou alheia a nada do que me ocorreu. É  por tudo isso que deixo registrada aqui uma parte de todo o meu amor e admiração, que só fazem crescer com o passar dos anos.
     
     E que aqueles cujas mães já não se encontram entre nós se sintam abraçados e confortados pelo fato de que, se chegaram a ser as pessoas bem sucedidas de hoje, grande foi a contribuição da mulher que os gerou para tal resultado. Ainda que não tenham convivido com a figura materna, a Genética corrobora o que acabei de dizer, bem como a certeza de que a vida que lhes foi concedida já é uma incontestável prova de amor.


domingo, 14 de abril de 2013

Um Planeta que Pede Socorro


     

"Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro."
                                                                               - Provérbio indígena




     O homem é um ser ingrato por natureza. Do tipo que nunca considera suficiente o que possui e não zela devidamente por tudo de que dispõe. E os reflexos desse traço da personalidade humana tornam-se ainda mais perceptíveis quando se analisa o impacto da ação antrópica sobre o planeta como um todo. Em nome de seu próprio conforto, atendendo à sua ganância desmedida e enchendo a boca para falar em “progresso”, o homem explora, desmata, polui; ultrapassam-se com frequência nas empreitadas humanas os limites do necessário à sobrevivência da espécie. Outros seres vivos, considerados irracionais de acordo com padrões definidos pelos humanos, demonstram-se muito mais sensíveis do que estes para com seus semelhantes e para com o ambiente que os circunda.
     Generalizações tendem à injustiça, sendo relevante dizer que há pessoas que demonstram uma consciência expressivamente aflorada, conduzindo suas vidas de forma mais responsável, sustentável. E esse é o ideal, o perfil que se faz obrigatório a cada um de nós para que asseguremos a manutenção dos recursos naturais e, consequentemente, possibilitemos a continuidade da vida na Terra sem maiores transtornos.  Por outro lado, é hipocrisia afirmar que todos demonstram tal preocupação, longe disso. Se a Natureza é uma mãe, por vezes portamo-nos como seus filhos mais inconsequentes. Completo, pois, a primeira frase do presente texto: o homem é um ser ingrato por natureza à Natureza.
      Dessa forma, o desenvolvimento sustentável é um conceito muito difundido nos tempos modernos, mas que nem sempre ganha concretude fora do papel. Conforme o meu entendimento acerca do assunto, é possível que a humanidade caminhe, se aperfeiçoe e se desenvolva sem causar impactos irreversíveis para a Natureza; pode-se perfeitamente progredir através da utilização razoável e consciente dos recursos naturais, preservando as outras formas de vida que habitam o planeta. Ou seja, progresso e meio ambiente podem (devem) estar lado a lado na lista das prioridades humanas.
     Todavia, não é o que se verifica na prática: valoriza-se muito o progresso em detrimento da sustentabilidade, da utilização consciente dos recursos naturais. Um exemplo nítido que se aprende desde criança: à medida que a urbanização dos grandes centros avança, a vegetação original dos espaços ocupados pelo homem desaparece. É assim que muito se perdeu da Amazônia, da Mata Atlântica e de outros biomas importantes - isso só no Brasil, sem ainda mencionar a gravidade do problema a nível global.
      Em tempos do ruralista e megaempresário Blairo Maggi na presidência da Comissão de Meio Ambiente do Senado, faz-se importante voltar os olhares para o nosso próprio território, antes de questionar as atitudes da humanidade como um todo. A título de argumentação, Maggi é
considerado o maior produtor individual de soja do mundo, tendo recebido o famigerado troféu “Motosserra de Ouro”.  E a propósito, é justamente a soja, ao lado da produção de gado, que é apontada como principal vetor da devastação da Floresta Amazônica. Não me posiciono contra essas produções, que a priori visam a atender a demanda de alimentos da população mundial, mas é inegável que a sustentabilidade fica em segundo plano.
     
Plantar uma árvore é um gesto de generosidade louvável, mas “reflorestamento” é outro conceito que não figura entre as atividades prioritárias de muitas das grandes empresas que se utilizam dos recursos naturais. Há ainda a voracidade das queimadas, cujas causas podem ser aparentemente inofensivas, como uma guimba de cigarro, mas que propagam a morte à medida que as labaredas aumentam, deixando a paisagem negra, transformando a vida em carvão.
      O que se percebe é que o progresso desordenado típico do Sistema Capitalista está tirando a cor do nosso planeta. O verde e o azul estão dando lugar ao cinza. A poluição compromete a beleza das diversas formas de vida. O rio Tietê, dentre outros, constitui verdadeira prova do descaso de uma sociedade que não limpa, mas varre a sujeira para debaixo do tapete. Com tantas lixeiras espalhadas por aí, é inadmissível a situação em que até mesmo muitos dos pequenos rios se encontram: retrato asqueroso da má educação da espécie humana.
      Grandes empresas lançam os seus dejetos nas águas; garimpeiros se utilizam de mercúrio por longos períodos em sua atividade, contaminando a água, o solo e os seres vivos do local explorado; as pessoas não se policiam para jogar o lixo em local adequado, desfazendo-se dele em águas correntes e outros lugares inapropriados, inclusive nas vias públicas, dentre uma infinidade de outras condutas irresponsáveis e reprováveis. Que seja um papel de bala, custa guardá-lo até que se encontre um meio para que seja devidamente descartado? Garanta a reciclagem dos seus resíduos! Outras perguntas pertinentes: sua cidade tem coleta seletiva? Se tem, você separa o lixo da forma correta? E se não tem, que tal pensar com carinho na ideia e passá-la adiante?
     A água que bebemos tem um valor inestimável, mas parece que só quem não dispõe com fartura de tal recurso reconhece sua verdadeira importância. Se sobra na sua torneira, falta em casas de famílias que vivem em condições precárias e percorrem quilômetros em busca de uma água turva, barrenta, como frequentemente acompanhamos pelo noticiário. Sendo assim, economize ao máximo no banho, ao escovar os dentes, lavar a louça, enfim, em tudo o que for possível. Use-a somente no que é indispensável e com sensatez.
     Os outros animais, criaturas adoráveis (alguns nem tanto, confesso, mas que não deixam de ter sua importância dentro das relações que garantem a manutenção da biodiversidade), inocentemente pagam um preço muito alto pela falta de consciência da espécie humana, haja vista a lista crescente dos que se encontram extintos ou ameaçados de extinção. Admitir que uma espécie de ser vivo desapareça por completo da face da Terra é muito triste, revoltante. E dá um nó enorme na garganta ao concluirmos que a responsabilidade por todas essas perdas é de todos nós.
     Abominamos a ideia de perder nossa liberdade de locomoção, mas construímos jaulas e gaiolas e obrigamos uma vida a se desenvolver dentro de tão pouco espaço.
Quando se trata das aves silvestres, por exemplo, o ideal seria "mais vale um pássaro voando do que centenas deles maltratados em gaiolas". É muita audácia e despeito do homem, que não sabe o que é voar por conta própria, reprimir as asas dos que podem fazê-lo. Isso quando os representantes da fauna não são vítimas da caça indiscriminada, que muitos ousam chamar de lazer.
     Apesar desse panorama preocupante, acredito na possibilidade de reversão ou de minimização dos impactos ambientais que nós mesmos provocamos através da educação, da conscientização, da crença de que seja possível, sim, a ideia de desenvolvimento sustentável. Porque o planeta pede socorro e eu peço encarecidamente através deste texto que cada um dos leitores faça a sua parte a tempo, a fim de que sejamos poupados pelas forças implacáveis da Mãe Natureza. Se só um faz sua parte, em nada se avança; por outro lado, se cada um faz sua parte, caminhamos a passos largos para dias cada vez melhores. Caso contrário, a longo prazo nosso destino não nos será favorável - mãe que é mãe, por mais generosa que seja, também sabe a hora certa de impor os castigos cabíveis, principalmente quando seus filhos a provocam.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

De Igual para Igual



"No caráter, na conduta, no estilo, em todas as coisas,
a simplicidade é a suprema virtude."
                                                            - Henry Wadsworth Longfellow




     A arrogância não é exclusividade de quem tem muito dinheiro, beleza, status e/ou inteligência. Muitos não têm nada disso e ainda assim se acham melhores do que seus semelhantes. E quase sempre esta se mostra uma característica de gente pequena, acostumada ao fracasso; de quem se esforça para transformar pequenos acertos em vitórias épicas. O que nem todos enxergam é que há muito charme e elegância na simplicidade. Quem é seguro de si não precisa exaltar seus êxitos. Em terra onde todos querem aparecer, quem é discreto atrai mais atenção.
      Ser gentil e bem educado, por exemplo, não custa nada; não se trata de um favor, mas de uma obrigação que a própria consciência impõe aos que não se sentem o centro do mundo, a quem não tem a idéia redondamente equivocada de que não precisa dos outros. Lidamos constantemente com pessoas, que merecem ser respeitadas em suas particularidades. Sua forma de tratá-las diz muito a seu respeito e pode trazer consequências, ainda que a longo prazo.
      Seja doce no seu cotidiano e perceberá que até um "bom dia" proferido sem entusiasmo por alguém ao seu redor pode deixar de ser um ato mecânico e se transformar em um sincero desejo, acompanhado do sorriso de uma pessoa que te considera admirável. E o valor disso é inestimável, acreditem. É isso que te faz cada vez melhor; não melhor do que os outros, mas melhor.