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domingo, 20 de setembro de 2015

O Abismo do Esquecimento

"Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso".

- François Chateaubriand 

 

 


Havia acabado de receber alta do hospital. Chegou à recepção marchando a passos lentos em virtude do recente mal estar, conduzida por um médico deveras jovem e simpático. Ansiosíssima por rever sua querida família, não conteve o sorriso largo ao encontrar o marido Leônidas acompanhado de seus maiores tesouros: Bianca, Dalva e Inácio. Este ainda se encontrava no colo do pai, mas as meninas já frequentavam os primeiros anos da escolinha. 

Ela se considerava uma mulher realmente feliz; fora profundamente apaixonada por Leônidas Magalhães, um vereador aclamado pelo povo da cidade, digno e honesto, com quem conseguira se casar numa cerimônia inesquecível. Todo aquele ardor inicial da paixão tórrida havia amenizado, à medida que as coisas se assentavam e seus sentimentos se cristalizavam num amor calmo, recíproco e, sobretudo, verdadeiro. Efeito previsível de vários anos de companheirismo. Da união nasceram os três herdeiros, e ambos os pais dedicavam seus esforços para que as crianças tivessem um futuro promissor ou, no mínimo, confortável. O marido há muito degustava do prestígio de sua carreira política cada vez mais bem sucedida; ela era escrivã no fórum da cidade, e também estava muito satisfeita com seu trabalho. A vida lhe havia sido deveras generosa, não poderia negar.

A família vivia em uma casa grande, decorada com extremo bom gosto. O quintal era vasto, cenário de brincadeiras, gargalhadas, tombos e traquinagens dos filhos. Os empregados eram leais, sempre muito bem tratados. Leônidas, a despeito da correria de sua vida política, nunca deixou de ser atencioso, carinhoso e presente em todos os assuntos relacionados à vida doméstica. Grande homem!

Os anos se passaram, no entanto, e o destino da família Magalhães se desenrolou de forma imprevista. Inácio, Dalva e Bianca já não se encontravam mais na mansão. Eram adultos muito ocupados! Cada qual havia seguido o seu próprio caminho, constituído família e o trabalho lhes consumia. As visitas aos pais se tornaram cada vez menos frequentes, até se restringirem ao Natal e à apresentação dos netos recém-nascidos aos avós, breves momentos de raras alegrias.

Os três filhos moravam em outras cidades e pareciam não muito dispostos a enfrentar as distâncias para rever Leônidas e a esposa. Estes, agora idosos e aposentados, sentiam muita falta dos jovens pela casa. Notavam com profundo pesar que os três estavam cada vez mais distantes mas mantinham-se firmes, porque, embora não pudessem mais contar com os filhos, ainda tinham um ao outro. Falavam sobre as “crianças” ao se deitarem, todos os dias, consolando-se mutuamente. Era como se um abismo lhes separassem dos herdeiros. Numa manhã calma de sábado, porém, Leônidas não abriu os olhos. Não atendeu aos chamados da amada, sucedidos de gritos desesperados e interrompidos apenas pelos soluços em meio a um pranto de profunda dor. A dor da perda, sabemos, é deveras lancinante. Ela agora era uma viúva. Era, sobretudo, uma senhora solitária.

Os filhos compareceram ao velório. Abraçaram a mãe, inconsolável. Mal sabiam o que dizer para confortá-la. Nada do que dissessem devolveria a felicidade àquela senhora desolada. Dalva sequer ficou para o enterro; desculpou-se e partiu com o marido sabe-se lá para onde. Inácio, o caçula, sentia remorso ao vê-la tão triste, mas não pretendia largar a sua carreira para cuidar da mãe. Providenciara de imediato a contratação de Suzana, uma cuidadora de idosos experiente e gentil que se mudaria para a mansão e ficaria incumbida de acompanhar os passos da viúva.

Findo o enterro, Bianca também partiu. Depois que os presentes se dispersaram e a mãe prestou sua última homenagem junto ao túmulo do finado marido, Inácio a colocou em seu carro e rumaram para a mansão. Certificando-se de que Suzana já se encontrava em serviço, despediu-se da mãe, ainda abatida, deixando-a na companhia da cuidadora. Como não havia mais alguém a quem se dirigir, a triste senhora confidenciou a Suzana que nunca mais conseguiria chorar. Segundo ela, acompanhar o enterro do marido fez com que despejasse todas as lágrimas que armazenava no corpo; sabia que elas haviam secado, tal qual a felicidade que outrora habitara seu coração.

O tempo passou e a senhora Magalhães começou a se esquecer de coisas simples do cotidiano. A perda de memória progressiva chamou a atenção de Suzana quando, além de raramente se recordar do nome da cuidadora, a viúva solitária esqueceu um bolo no forno. As torneiras das pias estavam sempre abertas, ela perdia as chaves pela mansão e chegou ao ponto de ameaçar ligar para a polícia, por não reconhecer Suzana em sua casa e pensar tratar-se de uma invasora. Em poucos meses ela seria diagnosticada com Alzheimer.

“Essa doença é uma praga”, dizia ela a Suzana. Queixava-se que a vida já lhe havia tirado o marido e as alegrias, e que agora nem mesmo as boas recordações de seus anos felizes permaneceriam para lhe consolar. Como os filhos, que se foram pouco a pouco, a própria memória a abandonaria. Sozinha, naquela casa enorme, que parecia a cada dia mais escura e fria. Suzana era uma boa profissional, mas optava por não criar vínculos afetivos com os idosos sob seus cuidados. Preferia não se apegar para não se sentir responsável por eles. Dessa forma, ouvia atenciosamente a patroa, mas não era dada a demonstrações efusivas de afeto. E era exatamente disso que a senhora Magalhães mais carecia.

A viúva de Leônidas anotava num pequeno caderno tudo o que vivia diariamente, para que pudesse ler e relembrar tempos depois. No entanto, as palavras também começavam a fugir de sua mente, pouco a pouco. Num futuro não muito distante não seria capaz de ler os registros. Esquecia-se com frequência dos termos mais precisos para expressar o que desejava e ficava ansiosa ao tentar encontrar algum substituto para conseguir se comunicar. Não tinha coragem de tirar a própria vida, mas rogou aos céus por diversas vezes para que a sua existência fosse abreviada o quanto antes. Sentia-se tragada pelo abismo do esquecimento, que parecia não ter fim. Acreditava que, quando seu coração parasse de bater nesse corpo de matéria, em algum lugar ela se encontraria com Leônidas. Aliás, a figura do marido resistiu até o fim: foi uma das últimas lembranças a se apagar.

Os filhos também seriam esquecidos; afinal, muito antes se esqueceram da mãe. Não sabia mais o que era o amor; há muito não vivenciava o prazer inenarrável de tal sentimento. Apagou-se de sua memória a sensação, antes mesmo que a própria palavra fugisse do seu vocabulário cada vez mais reduzido. Sentia-se inútil, invisível, insignificante. Seu olhar era um convite à tristeza. Em seus últimos dias, no entanto, ela parecia serena. Arriscava um sorriso cansado em alguns momentos em que Suzana a levava para tomar sol, e só. Não conseguia mais falar. Com tantas palavras disponíveis, sua linguagem se resumia a sons sem sentido. Não sabia mais o próprio nome. Sim, caro leitor, esta mulher tinha um nome: Madalena Soares Magalhães. Mas de que importa o seu nome, se nem a sua pessoa era lembrada? Madalena abandonaria a vida convicta, porque fora abandonada. Alcançaria, enfim, o fundo daquele abismo. 



 

domingo, 19 de abril de 2015

O Menino que Caçava Vaga-lumes



    


  Com apenas cinco aninhos, o pequeno Juca já se revelava um sonhador. Logo que a noite caía, saía correndo pelo vasto quintal do sítio em que morava com os pais, à caça de vaga-lumes mais desatentos. Numa das mãos, empunhava uma redinha costurada pela mãe, Florinda, e amarrada a uma haste de madeira; na outra, trazia o seu potinho, que outrora comportava a saborosa geleia de amora preparada pela avó Guilhermina. O frasco agora tinha outra finalidade: abrigar os vaga-lumes que o pequeno capturaria em suas jornadas noturnas.
       E Juca, tão novo, pensava em tudo: o fundo do pote era forrado com folhas verdinhas de diferentes plantas do quintal; afinal, pensava ele, aqueles vaga-lumes deviam comer pequenas folhas para sobreviver, como faziam tantos outros bichinhos. Não secava o recipiente após lavá-lo, para que os insetos pudessem beber as gotículas de água que restavam no vidro. Por fim, a tampa era furada com a ponta de um espeto em brasa, para que lhes fosse possível respirar lá dentro. Mas era o pai quem manuseava o ferro quente, porque “criança, além de não poder mexer com coisa pontuda, não pode brincar com fogo, senão faz xixi na cama”! Era o que o “Seu” Joaquim dizia. E Juca não teimava, porque morria de vergonha quando acordava com o colchão todo molhado sob seu corpo.
       O garoto não podia se afastar muito da velha casa, porque os pais ficavam preocupados e deixavam-no de castigo. No entanto, logo nas redondezas o pequenino já se satisfazia: havia por ali vaga-lumes para todos os gostos! E lá ia ele, correndo de um lado para o outro e balançando vigorosamente a sua redinha. Na hora de colocá-los dentro do frasco, destampava-o com todo o cuidado, para que os cativos não escapassem. Ficava profundamente irritado quando, ao tentar aprisionar um novo, os demais fugiam e saíam piscando livremente pelo ar. Os pais riam entre si, lamentando pelos vagalumes, pobres vítimas da recreação do filho. 

      Quando indagado sobre o porquê de fazer aquilo, o menino não titubeava: “porque eles são lindos, e eu quero cuidar deles para sempre, ora! Vou ter toda a luz do mundo aqui, dentro do meu potinho! Com esses vaga-lumes, não preciso mais ter medo do escuro, porque, mesmo que a luz acabe, eles irão brilhar para mim”. Sempre que falava isso, o pai lhe advertia de que o mais importante seria manter bem acesa a luz que havia dentro do seu pequeno coração. Porque, segundo o “Seu” Joaquim, quem tivesse luz dentro de si, jamais ficaria no escuro. Mas Juca era muito novo para compreender aquilo e tinha coisas mais importantes para se preocupar: capturar mais vagalumes. Quanto mais aprisionava, mais apareciam! Estavam desafiando sua persistência, mas ele era incansável. E o potinho reluzia cada vez mais, como uma lamparina viva, para a satisfação do pequeno sonhador. “Um lindo espetáculo!”, dizia a mamãe, enchendo-lhe de orgulho.
       A alegria de Juca, porém, não durava muito. Ele adormecia, passava-se algum tempo, e, quando procurava novamente o seu pote para retomar a caçada, percebia que os vaga-lumes não mais piscavam; os coitados sequer se mexiam! Estavam mortos. E aí se iniciava um longo pranto, motivado pela profunda frustração de perder, de forma repentina, algo que lhe era tão valioso. A mãe ficava com o coração partido. E o pai, sempre firme, explicava que com as pessoas poderia acontecer a mesma coisa que ocorria com os vaga-lumes de Juca. Porque “quando a gente se sente preso de alguma forma, a gente perde aos poucos a nossa luz. Ficamos cada vez mais fracos, apagados, até o momento em que paramos de brilhar”. Esse ensinamento também era complexo demais para o entendimento do filho, que preferia deixar para pensar naquilo depois. Ele não podia perder tempo com essas coisas de adultos, tinha mais o que fazer: encontrar novos vaga-lumes; uns bem grandes e brilhantes, para que suas luzes não se apagassem nunca! E assim recomeçava todo o ciclo, que se resumia a uma esperança que dava lugar a uma alegria passageira; esta, por sua vez, posteriormente substituída pela frustração.
       O tempo passou e Juca foi para a cidade grande, onde iniciou seus estudos e começou a trabalhar. Trocou a redinha e o potinho de outrora por lápis, caderno e ferramentas. Esqueceu-se dos vaga-lumes. E estudou muito, por longos anos, galgando cada vez mais degraus rumo ao que ele concebia como seu sucesso pessoal e profissional. Isso fez com que também se afastasse de seus pais de forma gradativa. Eles provavelmente ainda viviam no sítio, mas aquela vida era pacata demais para o jovem que havia ganhado o mundo. O Juca sonhador deu lugar ao prático e calculista José Carlos, importante executivo de uma empresa consolidada no mercado.
       José Carlos, além de não mais ter notícias de seus pais, parou de contemplar e de sonhar com as coisas mais simples. Nunca estava satisfeito com o que tinha. Queria sempre mais. Estava cada vez mais preso a prazos, horários e a uma rotina impecavelmente organizada. Não podia falhar, em hipótese alguma. Não havia tempo para consertar eventuais falhas, nem para cultivar as amizades ou construir um amor sólido ao lado de alguém. Atraía muitas pessoas dispostas a isso, mulheres e homens com quem esbarrava nos corredores da empresa, mas se limitava a relações superficiais e efêmeras – a maioria fomentada por algum tipo de interesse –, tão somente para satisfazer suas necessidades fisiológicas. Não dispunha de muitas horas vagas e nem de paciência para conhecer alguém em profundidade e para conquistar eventuais pretendentes.
       O terno não podia estar sujo ou amassado, e os sapatos não ficavam sem graxa. A barba, sempre bem feita. A opinião dos outros era cada vez mais importante - não podia decepcionar a ninguém, tinha que corresponder a todas as expectativas e ainda mais: era preciso surpreender, sempre. Não podia extravasar demais, tampouco se mostrar deveras introspectivo. Sempre equilibrado, esse era o foco. Sóbrio, racional, discreto, ponderado. Chato. Eterno frustrado. Escravo da aprovação alheia, da mesmice e, sobretudo, do dinheiro. Como um vaga-lume sufocado, José perdia pouco a pouco a sua luz própria, e só ele não percebia. Estava imerso em trevas.
       E assim ele continuou, enquanto pode. Até o dia em que, saturado de obrigações, seu coração não suportou tanta pressão. Foi conduzido às pressas ao hospital mais próximo. Na fria maca sobre a qual repousava, José viu imagens dos momentos que viveu, dos mais recentes aos mais remotos. Naquele instante, toda a sua vida passou diante de seus olhos, de trás para frente, como num filme exibido ao contrário. Regressou ao seu passado. Por alguns segundos, José tornou-se Juca novamente. Sentia-se, outra vez, o menino sonhador que se contentava com alguns vaga-lumes piscando dentro de um pote de vidro. Havia mais tempo para sonhar? Sabia que não, e caiu em si. Sua realidade já era outra; seu corpo era outro, e perecia. Por mais que quisesse voltar no tempo e resgatar para si a infância feliz, todo o dinheiro que havia angariado nos últimos anos não seria capaz de realizar o seu desejo. Nenhum dos colegas de trabalho iria lhe oferecer ajuda; certamente estavam mais preocupados com a situação de suas contas bancárias.
       Lembrou-se dos pais. Adoraria que segurassem sua mão naquele momento e que cuidassem dele, como fizeram quando padeceu de catapora; mas Florinda e Joaquim não estavam mais ali. Eis que depois de tantos anos Juca entendia, enfim, que “quando a gente não é livre, vai perdendo a luz própria, até parar de brilhar de vez”. Era mais ou menos isso que o pai repetiu por diversas vezes durante sua infância. Sua luz se esvaía. E de que adiantava, afinal, ser um homem bem sucedido aos olhos dos outros, se para si mesmo estava apagado? De súbito, porém, voltou a se alegrar quando percebeu que outra luz invadiu o quarto de hospital em que repousava. Uma luz deveras forte e misteriosa, distinta de tudo o que havia visto até então, e que rapidamente se expandiu pelo cômodo. Ela o envolvia e acalentava como o toque gentil das mãos de seus pais, que há muito não sentia. Não sabia de onde vinha toda aquela claridade, mas estava disposto e pronto para entregar-se, diante da estranha convicção de que voltaria a brilhar quando se tornasse parte dela. Dessa vez, iria sem sua redinha e seu pote de vidro; estava de mãos vazias, sem desejo de aprisionar. No peito, uma única vontade: ser verdadeiramente livre. Assim, a felicidade também viria.
       Seria aquela a luz de infinitos vaga-lumes? Isso só o Juca iria descobrir.   



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Impossível Despedida


"Ai de quem ama

Quanta tristeza
Há nesta vida
Só incerteza
Só despedida

 
Amar é triste
O que é que existe?
O amor

Ama, canta
Sofre tanta
Tanta saudade
Do seu carinho
Quanta saudade

Amar sozinho
Ai de quem ama
Vive dizendo
Adeus, adeus".

- Vinícius de Moraes.




Deitei o porta-retratos sobre a mesinha da sala
Aquele que continha teu sorriso estampado junto ao meu
Tencionando não mais sentir o desejo incontrolável
Que me acomete ao contemplar tua face perturbadora
Verdadeira obra de arte, objeto de meu máximo deleite

Delineada e esculpida por algum artista genial


Lavei todas as minhas roupas
Pretendendo tirar delas o teu perfume
Aquele aroma inconfundível que me embriagava
Nas inúmeras vezes em que te esfregavas sobre meu corpo entregue
E com carícias incessantes me fazias flertar com a loucura


Experimentei beijar outras bocas
Na tentativa vã de encontrar alguma que superasse teu gosto
E me fizesse esquecer de vez da doçura do néctar com que me brindavas
Daquele sabor inexplicável que neutralizava as amarguras do cotidiano
Enquanto minha língua dançava entrelaçada à tua


Apaguei o número do teu telefone
Porque estou certo de que ouvir novamente a tua voz
Melodia cadenciada que acelerava o ritmo do meu coração
Seria verdadeira tortura irresistível
Que me capturaria como um canto de sereia


Queria lacerar-me, arrancar a própria pele
Como uma serpente que se renova a cada ciclo
Para não mais ter recordações dos arrepios de outrora
Quando tuas mãos quentes e tua língua aventureira
De minha nudez e ingenuidade tanto se aproveitavam


Mas agora é tarde para o meu coração desenfreado
Pondero e constato, atônito
Que nada disso seria suficiente para te arrancar de minhas entranhas
Pois como o ferro superaquecido que deixa sinais permanentes no gado
Marcaste-me para sempre, além da pele


Tua imagem
Teu cheiro
Teu gosto
Tua voz
Teu toque
Nada disso ficou para trás


Quem ficou para trás fui eu
No entanto, apesar de todo o pranto
A despeito de teres me virado as costas

Ainda estás aqui
Presente em mim
Por toda a eternidade


Tu, que vieste sem avisar
Tu, que me roubaste o coração e a inocência
Para depois me deixares no escuro e sem respostas
Saibas que de mim o perdão jamais terás
Porque conseguiste muito mais do que isso
Muito mais do que eu deveria entregar

Tu, que vieste sem avisar
Tu, que sem pedires
Vieste pra ficar.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Pérola Negra e o Marfim




Você não precisa passar fome para que se incomode com a desigualdade social e a consequente marginalização dos menos favorecidos. Da mesma maneira, não é necessário ser negro para ser contra o racismo, nem ser homossexual para se mostrar contrário à homofobia. Também não precisa ser uma mulher para repudiar o machismo. Para ser contra qualquer forma de preconceito, portanto, não é necessário ter sido ou tornar-se uma vítima direta dele. Você só precisa reconhecer que ele existe e ser detentor(a) de um pingo de senso de humanidade.


     Catarina, uma garota que apesar da pouca idade já demonstrava sede de viver, levava sempre consigo um sorriso de gente grande, generoso e inconfundível. Trazia nos olhos o brilho de uma alma inocente, preparada para amar sem moderação. Sua família não tinha dinheiro de sobra, mas sempre viveram com conforto e muita dignidade.
     Não era uma “moreninha”, como muitos costumavam dizer, como se este fosse um termo mais agradável aos seus ouvidos. Era negra, isso sim - e negra com orgulho! Reconhecia seu devido valor, bem como a relevância, a contribuição e os sacrifícios inegáveis dos seus antepassados para a formação da sociedade plural em que se via inserida. Por todos esses motivos, jamais negaria suas origens. Jamais menosprezaria a cor da sua pele. E razões para se orgulhar não lhe faltavam: a genética tinha produzido uma joia.
     Os traços fortes e exuberantes da sua face compunham um todo simétrico e harmônico. A meiguice dos seus gestos, a delicadeza ao andar e a intensidade do seu olhar eram o prenúncio da mulher encantadora que se tornaria. Tratava-se de uma verdadeira pérola negra.
     Logo que ingressou na adolescência, Catarina conheceu Alberto. O acaso conspirou para que fossem matriculados em uma mesma turma da escola. Ele, descendente de alemães, nasceu rodeado pelo luxo e acostumou-se a ter tudo o que queria antes mesmo de conseguir expressar em palavras a sua vontade. Era alto, loiro, branco. Branco como o marfim. Após poucos dias de aula, tornou-se o centro das atenções de um grupo de meninas da classe. Entretanto, foram a indiferença e a beleza generosa de Catarina que despertaram seu real interesse.
     O primeiro passo foi aproximar-se nos intervalos das aulas para conversar sobre matérias, colegas e professores. Depois de alguns dias, já se prontificava a carregar os materiais da garota e a acompanhá-la até a porta de casa. Estava apaixonado, sem volta. Após alguns meses de convívio e declarações recíprocas, ambos resolveram assumir o namoro.
     Pareciam feitos um para o outro: a mistura perfeita, peles que se complementavam, como Yin e Yang. Sol e lua, dia e noite, branco e preto; um casal de encher os olhos. Como mandava o protocolo, era chegado o momento de um conhecer a família do outro. Todos ansiosos: os dois apaixonados e seus pais. Assim, na data convencionada Alberto entrou na sala da sua requintada casa, de mãos dadas com Catarina.
     Os pais do garoto, ao examinarem da cabeça aos pés a sua tão famigerada namorada, não demonstraram qualquer empolgação. Pareciam incomodados, na verdade. Almoçaram todos juntos, sobre a mesma mesa, mas com um clima notoriamente tenso pairando no ambiente. A menina estava se sentindo deslocada, incomodada com o silêncio dos pais de Alberto e com os olhares que deles recebia. Bocas fechadas, mas olhos expressivos, que falavam por si. Olhos de desconforto, de reprovação, de aversão... de preconceito.
     Quando a sós, Catarina tentou desabafar com Alberto, que se esforçava para evitar o assunto. Tudo para não entristecê-la. Com o passar dos dias, entretanto, ela comprovou suas suspeitas por conta própria: surpreendeu-se ao ouvir adjetivos diversos sussurrados em outros cômodos, em alguns dos momentos em que se encontrava na casa do seu amor.
     “Escurinha”, “favelada”, “neguinha”... palavras banhadas em aversão povoavam as conversas que os pais do namorado tinham entre si, sem se preocuparem em controlar o tom de voz.  E por inúmeras vezes, procurando a amada depois de estranhar seu sumiço, Alberto a encontrou encolhida no chão, com a cabeça apoiada nas pernas e a face inundada. Lágrimas que nem pela tranquilidade dele a garota conseguia conter. Lágrimas de quem se sentia menosprezada por algo que era inerente à sua pessoa, que era parte da sua identidade, portanto impossível de mudar; e que nem deveria mudar, uma vez que não a fazia melhor ou pior que ninguém. Eram como lágrimas de sangue, do mesmo sangue de tantos outros negros que fora historicamente derramado ao redor do mundo.
     Catarina sentia, pela primeira vez e na própria pele, a dor lancinante do preconceito. Notava, então, que ser negra a tornava inferior aos olhos injustos e cruéis de alguns; mais do que isso, percebia que para estes a sua cor a tornava desqualificada para se relacionar com um garoto branco.
     Alberto estava completamente dividido. De um lado, o olhar outrora intenso da amada, agora perdido, sem brilho, vazio e encharcado. Do outro, a sua família, pressionando para que terminasse o namoro e abandonasse a garota. Porque ele encontraria qualquer menina que desejasse, alguma que fosse mais “compatível e apta a fazê-lo feliz”, como os pais costumavam dizer, ignorando que Catarina já conseguia fazê-lo transbordar de felicidade. Ameaçaram inclusive suspender qualquer auxílio financeiro para o filho, enquanto ele não colocasse um ponto final em seu relacionamento.
     E em dias que se seguiram, Catarina notou com enorme pesar o seu namorado cada vez mais distante. O garoto não tomava qualquer atitude, evitava tocar no assunto, parecia fazer vista grossa para o sofrimento que ela transpirava. Ele começou a faltar às aulas, aparecendo vez ou outra; procurava-a menos, demonstrava menos afeto... até o dia em que sumiu, definitivamente.
     Já com um mau pressentimento, a abatida garota criou coragem para fazer algo que há muito se recusava: voltou à casa de Alberto, para saber qual era a razão do sumiço do amado. Quem a atendeu foi a empregada, que trazia consigo um envelope e o entregou à menina aflita por respostas. Catarina, pressentindo o teor do que estava no envelope, agradeceu à empregada e virou-se, iniciando o retorno para casa. Com o coração disparado e ainda sem coragem para abrir a carta, sentou-se em um dos bancos da praça; no banco em que costumava sentar-se para trocar carícias por horas a fio com Alberto.
     Ansiando por encerrar logo a angústia que a consumia, abriu o envelope e encontrou uma mensagem, indubitavelmente escrita de próprio punho pelo seu amor. Nela, o garoto pedia para que jamais se esquecesse de todos os momentos mágicos que passaram juntos; reiterava por diversas vezes que ela tinha conquistado sua admiração, seu carinho, seu amor. Explicava que a família não aprovava aquela relação, impondo um afastamento que ele não desejava; todavia, não tinha forças suficientes para enfrentar as ordens de seus pais, tampouco para ver as lágrimas da sua amada frente à rejeição e menosprezo com que a tratavam. Ele não queria se posicionar a favor de um lado ou do outro. Eram amores distintos em confronto. Assumiu ser covarde, ainda dependente do auxílio material familiar, o que lhe orientava a respeitar a vontade dos pais. Confessou ter chorado enquanto redigia a carta, mas nem precisaria fazer tal consideração: em algumas palavras havia borrões, manchas sobre a tinta azul da caneta. Eram evidentemente os pontos em que as lágrimas caíram e mancharam o que estava escrito. Por fim, pedia perdão por ter saído da vida da amada de maneira tão repentina, supostamente desejando que ela encontrasse outro alguém que tivesse a coragem necessária para fazê-la feliz.
     Alberto tinha se mudado. Fora morar com uma tia em outra cidade, transferido para outro colégio. O marfim tinha virado pó, que o vento levou. Catarina estava só. Foi então a sua vez de chorar, de encharcar a carta. A princípio, sentiu raiva de Alberto. Raiva da sua inércia, da sua covardia. Questionou a veracidade do amor que ele dizia sentir, perguntou-se se não haveria algum outro motivo para a partida inesperada do namorado. Não conseguia entender, não fazia sentido; não naquele momento. Não conseguiria também perdoá-lo de imediato; não enquanto sentisse aquela dor aguda no peito ao se lembrar de todas as juras de amor, de todos os planos traçados em conjunto, e que agora pareciam meras palavras vazias jogadas ao vento.
     Revoltou-se também contra os pais do garoto – criaturas vis, pequenas, limitadas. Incapazes de permitir que o próprio filho fosse feliz! Estavam cegos pelo preconceito, não se permitiam ver a beleza que há em cada ser humano, independentemente de suas características físicas. Talvez notassem toda a doçura e profundidade de Catarina, se ao menos deixassem que a garota mostrasse os valores e qualidades que trazia em si. Mas não, ela não teve tempo para isso, já que de imediato a menosprezaram, diminuíram, prejudicaram – tudo pelo fato de ser negra. Não tinham argumentos válidos, razões verdadeiras para pretenderem afastar os dois namorados.
     Branco e negro não podem se misturar? Quem disse isso? Quem teria direito a julgar a vida e os sentimentos alheios? Quem em sã consciência ousaria deslegitimar o amor sincero entre duas pessoas, analisando de longe, e pautando-se em meras características superficiais dos que se amam – características essas que não fazem um inferior ao outro? Quem se presta a esse papel certamente ainda não conheceu o verdadeiro amor. Enchem a boca para falar que o mundo precisa disso, de mais amor, mas não o conhecem, não o respeitam.
     Tiraram de Catarina uma parte de seu encantamento pelo mundo; mostraram-na como as pessoas, quando pouco esclarecidas, podem ser insensatas, cruéis, extremamente preconceituosas. Tiraram-na também a oportunidade ímpar de viver uma história de amor puro e verdadeiro por conta da cor da sua pele – o que não deve, jamais, ser fator determinante do tratamento que se confere a outra pessoa. Somos distintos apenas em aparência, o que é perfeitamente natural; enquanto semelhantes em essência, entretanto, deveríamos estar todos caminhando lado a lado, e não menosprezando ou desfavorecendo alguns com base em características que fazem parte da sua identidade e não os tornam menos gente.
     O coração da bela garota negra estava marcado com profundas feridas; o tempo as cicatrizaria, bem como traria o perdão que Alberto pediu na carta. Entretanto, a memória não permitiria que se esquecesse de que há muitas pessoas vazias, prepotentes e mal resolvidas consigo mesmas, a ponto de ousarem interferir nos sentimentos alheios e de se julgarem superiores às outras. Disso não poderia se esquecer; é questão de sobrevivência em meio a um mundo que muitas vezes se mostra hostil e desigual.
     Teria Catarina a sorte de encontrar um novo amor, tão intenso quanto o que conheceu em seus dias com Alberto? Deixariam, enfim, que vivesse uma história intensa e feliz com quem viesse a se envolver emocionalmente? Eram essas mesmas perguntas que ela se fazia naquele instante, ao perceber-se sozinha, abandonada, tendo seu amor suprimido pelo preconceito alheio.

(CONTINUA)...

* Em tempo: neste e em todos os dias, enquanto eu viver, emanarei meu reconhecimento, apoio e aplausos aos negros e a todas as pessoas que se veem marginalizadas neste mundo ainda injusto e desigual. Aos que lidam com bullying, com preconceito, com desigualdade ou com qualquer outro tormento por conta do que quer que seja, e que mesmo assim se mantêm firmes, arriscando um sorriso aqui e ali: não desistam! Danem-se os julgamentos, concepções e ofensas alheias, de quem nada soma às suas vidas; preocupem-se apenas com a voz da sua consciência. Não se condenem, não se agridam, não neguem os impulsos e peculiaridades que suas respectivas identidades lhes impõem a manifestar nesta breve existência. A beleza do mundo está justamente na pluralidade, na diversidade – o que permite que eventualmente um alguém complemente outro alguém.