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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Oásis dos Bem-aventurados



 “Amar é mudar a alma de casa.”
  - Mario Quintana



      Amar: verbo complexo, não é? Qual é a fórmula do amor, você sabe? O que define com precisão o momento em que uma pessoa está amando a outra? Como diferenciar o amor da paixão? Existem formas distintas de amar?


      Muitas perguntas, nenhuma resposta concludente. Os diferentes dicionários definem o amor de forma linear: todos os significados apresentados apontam para uma forte afeição por outra pessoa, originada através de laços de sangue ou de interações sociais. Mencionam, ainda, uma atração baseada no desejo sexual. Sou contra a alcunha de “pai dos burros” que é dada aos queridos dicionários, porque, embora sintéticos, esses velhos livrinhos já me salvaram de muitos apuros! Todavia, convenhamos: os significados apresentados não bastam. A mim, pelo menos, não satisfazem. Considero tais definições vazias, superficiais, pobres. Será que as pessoas que escreveram os verbetes dos diferentes dicionários de que dispomos nunca vivenciaram um amor verdadeiro?


      Talvez seja privilégio de poucos, mesmo. Que coisa divina esse sentir! O amor, meus caros, é um sentimento tão puro e forte que reconhece o momento de recuar, de dar um tempo para que as coisas se ajeitem da melhor forma possível. Sem segundas intenções, ele não é compatível com o desejo de posse, tampouco com conformismo ou comodidade. A ideia é a contrária: sair da zona de conforto, num desafio constante de conviver bem e levar felicidade diária ao seu par, ainda que distantes. Aos afortunados que se regozijam do amor verdadeiro basta a alegria do outro, independente de onde e com quem ele esteja. Quem ama de verdade não titubeia quando chega a hora de abrir mão de certos privilégios para que todo mundo consiga trilhar seus próprios caminhos e fique feliz, ainda que às custas de sofrimentos preliminares. Sofre, mas não se impõe. Somos todos humanos, temos os nossos limites pessoais. O amor verdadeiro reconhece e respeita todos eles e é mesmo eterno, ainda que a relação não dure para sempre. 


      Amar, penso eu, não é estar sempre junto. Isso é status, ou dependência. Trata-se da verdadeira libertação, e não da escravização de qualquer dos envolvidos. Ama-se para se sentir transbordante, não para se sentir completo. Cada um deve ser completo por si só e, nessa sua completude, somar à atraente completude do outro; permitir que ele esteja sempre radiante, mais do que satisfeito. O amor é o polimento da alma, da bondade humana. É vida em seu estado mais lapidado. “Penso; logo, existo”. Amo; logo, vivo. Todos nós deveríamos viver plenamente, e não apenas ter uma existência efêmera e vazia. O amor traz essa profundidade ao nosso espírito.   Aprendi isso na prática, vivenciando um sentimento verdadeiro e inédito. 

      Numa relação a dois, em algum momento uma ruptura pode se fazer necessária; não por falta de amor, mas porque as circunstâncias não são favoráveis. Chamem de Deus, de Destino, de sacanagem da vida ou como quiserem. O fato é: as relações se modificam, mas o sentimento permanece. Basta ter maturidade para encarar. "Aceita que dói menos"! Sentimento é como energia: se transforma, jamais se perde. O amor não morre. O meu não vai morrer, mesmo que a relação se modifique agora. Isso é amar, na minha modesta concepção. É bem querer a outrem acima de tudo, quando se dispõe a fazer concessões e sacrifícios para assegurar o bem estar da pessoa amada. Passa-se por cima de preconceitos, lemas, bordões, fórmulas, senso comum, conselhos, regras. Cai tudo por terra, numa dinâmica maravilhosa de construção, não de destruição! 


      Por todos vocês que repetem que se bastam, que estão fugindo do amor, como eu mesmo tentava me convencer, lamento. Isso é mentir para si mesmo. Torço, do fundo do meu coração, para que em algum momento de suas vidas vocês também consigam vivenciar desse imenso prazer. Nada pode ser mais feliz do que aquilo em que haja amor sincero.



domingo, 20 de setembro de 2015

O Abismo do Esquecimento

"Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso".

- François Chateaubriand 

 

 


Havia acabado de receber alta do hospital. Chegou à recepção marchando a passos lentos em virtude do recente mal estar, conduzida por um médico deveras jovem e simpático. Ansiosíssima por rever sua querida família, não conteve o sorriso largo ao encontrar o marido Leônidas acompanhado de seus maiores tesouros: Bianca, Dalva e Inácio. Este ainda se encontrava no colo do pai, mas as meninas já frequentavam os primeiros anos da escolinha. 

Ela se considerava uma mulher realmente feliz; fora profundamente apaixonada por Leônidas Magalhães, um vereador aclamado pelo povo da cidade, digno e honesto, com quem conseguira se casar numa cerimônia inesquecível. Todo aquele ardor inicial da paixão tórrida havia amenizado, à medida que as coisas se assentavam e seus sentimentos se cristalizavam num amor calmo, recíproco e, sobretudo, verdadeiro. Efeito previsível de vários anos de companheirismo. Da união nasceram os três herdeiros, e ambos os pais dedicavam seus esforços para que as crianças tivessem um futuro promissor ou, no mínimo, confortável. O marido há muito degustava do prestígio de sua carreira política cada vez mais bem sucedida; ela era escrivã no fórum da cidade, e também estava muito satisfeita com seu trabalho. A vida lhe havia sido deveras generosa, não poderia negar.

A família vivia em uma casa grande, decorada com extremo bom gosto. O quintal era vasto, cenário de brincadeiras, gargalhadas, tombos e traquinagens dos filhos. Os empregados eram leais, sempre muito bem tratados. Leônidas, a despeito da correria de sua vida política, nunca deixou de ser atencioso, carinhoso e presente em todos os assuntos relacionados à vida doméstica. Grande homem!

Os anos se passaram, no entanto, e o destino da família Magalhães se desenrolou de forma imprevista. Inácio, Dalva e Bianca já não se encontravam mais na mansão. Eram adultos muito ocupados! Cada qual havia seguido o seu próprio caminho, constituído família e o trabalho lhes consumia. As visitas aos pais se tornaram cada vez menos frequentes, até se restringirem ao Natal e à apresentação dos netos recém-nascidos aos avós, breves momentos de raras alegrias.

Os três filhos moravam em outras cidades e pareciam não muito dispostos a enfrentar as distâncias para rever Leônidas e a esposa. Estes, agora idosos e aposentados, sentiam muita falta dos jovens pela casa. Notavam com profundo pesar que os três estavam cada vez mais distantes mas mantinham-se firmes, porque, embora não pudessem mais contar com os filhos, ainda tinham um ao outro. Falavam sobre as “crianças” ao se deitarem, todos os dias, consolando-se mutuamente. Era como se um abismo lhes separassem dos herdeiros. Numa manhã calma de sábado, porém, Leônidas não abriu os olhos. Não atendeu aos chamados da amada, sucedidos de gritos desesperados e interrompidos apenas pelos soluços em meio a um pranto de profunda dor. A dor da perda, sabemos, é deveras lancinante. Ela agora era uma viúva. Era, sobretudo, uma senhora solitária.

Os filhos compareceram ao velório. Abraçaram a mãe, inconsolável. Mal sabiam o que dizer para confortá-la. Nada do que dissessem devolveria a felicidade àquela senhora desolada. Dalva sequer ficou para o enterro; desculpou-se e partiu com o marido sabe-se lá para onde. Inácio, o caçula, sentia remorso ao vê-la tão triste, mas não pretendia largar a sua carreira para cuidar da mãe. Providenciara de imediato a contratação de Suzana, uma cuidadora de idosos experiente e gentil que se mudaria para a mansão e ficaria incumbida de acompanhar os passos da viúva.

Findo o enterro, Bianca também partiu. Depois que os presentes se dispersaram e a mãe prestou sua última homenagem junto ao túmulo do finado marido, Inácio a colocou em seu carro e rumaram para a mansão. Certificando-se de que Suzana já se encontrava em serviço, despediu-se da mãe, ainda abatida, deixando-a na companhia da cuidadora. Como não havia mais alguém a quem se dirigir, a triste senhora confidenciou a Suzana que nunca mais conseguiria chorar. Segundo ela, acompanhar o enterro do marido fez com que despejasse todas as lágrimas que armazenava no corpo; sabia que elas haviam secado, tal qual a felicidade que outrora habitara seu coração.

O tempo passou e a senhora Magalhães começou a se esquecer de coisas simples do cotidiano. A perda de memória progressiva chamou a atenção de Suzana quando, além de raramente se recordar do nome da cuidadora, a viúva solitária esqueceu um bolo no forno. As torneiras das pias estavam sempre abertas, ela perdia as chaves pela mansão e chegou ao ponto de ameaçar ligar para a polícia, por não reconhecer Suzana em sua casa e pensar tratar-se de uma invasora. Em poucos meses ela seria diagnosticada com Alzheimer.

“Essa doença é uma praga”, dizia ela a Suzana. Queixava-se que a vida já lhe havia tirado o marido e as alegrias, e que agora nem mesmo as boas recordações de seus anos felizes permaneceriam para lhe consolar. Como os filhos, que se foram pouco a pouco, a própria memória a abandonaria. Sozinha, naquela casa enorme, que parecia a cada dia mais escura e fria. Suzana era uma boa profissional, mas optava por não criar vínculos afetivos com os idosos sob seus cuidados. Preferia não se apegar para não se sentir responsável por eles. Dessa forma, ouvia atenciosamente a patroa, mas não era dada a demonstrações efusivas de afeto. E era exatamente disso que a senhora Magalhães mais carecia.

A viúva de Leônidas anotava num pequeno caderno tudo o que vivia diariamente, para que pudesse ler e relembrar tempos depois. No entanto, as palavras também começavam a fugir de sua mente, pouco a pouco. Num futuro não muito distante não seria capaz de ler os registros. Esquecia-se com frequência dos termos mais precisos para expressar o que desejava e ficava ansiosa ao tentar encontrar algum substituto para conseguir se comunicar. Não tinha coragem de tirar a própria vida, mas rogou aos céus por diversas vezes para que a sua existência fosse abreviada o quanto antes. Sentia-se tragada pelo abismo do esquecimento, que parecia não ter fim. Acreditava que, quando seu coração parasse de bater nesse corpo de matéria, em algum lugar ela se encontraria com Leônidas. Aliás, a figura do marido resistiu até o fim: foi uma das últimas lembranças a se apagar.

Os filhos também seriam esquecidos; afinal, muito antes se esqueceram da mãe. Não sabia mais o que era o amor; há muito não vivenciava o prazer inenarrável de tal sentimento. Apagou-se de sua memória a sensação, antes mesmo que a própria palavra fugisse do seu vocabulário cada vez mais reduzido. Sentia-se inútil, invisível, insignificante. Seu olhar era um convite à tristeza. Em seus últimos dias, no entanto, ela parecia serena. Arriscava um sorriso cansado em alguns momentos em que Suzana a levava para tomar sol, e só. Não conseguia mais falar. Com tantas palavras disponíveis, sua linguagem se resumia a sons sem sentido. Não sabia mais o próprio nome. Sim, caro leitor, esta mulher tinha um nome: Madalena Soares Magalhães. Mas de que importa o seu nome, se nem a sua pessoa era lembrada? Madalena abandonaria a vida convicta, porque fora abandonada. Alcançaria, enfim, o fundo daquele abismo. 



 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Pérola Negra e o Marfim




Você não precisa passar fome para que se incomode com a desigualdade social e a consequente marginalização dos menos favorecidos. Da mesma maneira, não é necessário ser negro para ser contra o racismo, nem ser homossexual para se mostrar contrário à homofobia. Também não precisa ser uma mulher para repudiar o machismo. Para ser contra qualquer forma de preconceito, portanto, não é necessário ter sido ou tornar-se uma vítima direta dele. Você só precisa reconhecer que ele existe e ser detentor(a) de um pingo de senso de humanidade.


     Catarina, uma garota que apesar da pouca idade já demonstrava sede de viver, levava sempre consigo um sorriso de gente grande, generoso e inconfundível. Trazia nos olhos o brilho de uma alma inocente, preparada para amar sem moderação. Sua família não tinha dinheiro de sobra, mas sempre viveram com conforto e muita dignidade.
     Não era uma “moreninha”, como muitos costumavam dizer, como se este fosse um termo mais agradável aos seus ouvidos. Era negra, isso sim - e negra com orgulho! Reconhecia seu devido valor, bem como a relevância, a contribuição e os sacrifícios inegáveis dos seus antepassados para a formação da sociedade plural em que se via inserida. Por todos esses motivos, jamais negaria suas origens. Jamais menosprezaria a cor da sua pele. E razões para se orgulhar não lhe faltavam: a genética tinha produzido uma joia.
     Os traços fortes e exuberantes da sua face compunham um todo simétrico e harmônico. A meiguice dos seus gestos, a delicadeza ao andar e a intensidade do seu olhar eram o prenúncio da mulher encantadora que se tornaria. Tratava-se de uma verdadeira pérola negra.
     Logo que ingressou na adolescência, Catarina conheceu Alberto. O acaso conspirou para que fossem matriculados em uma mesma turma da escola. Ele, descendente de alemães, nasceu rodeado pelo luxo e acostumou-se a ter tudo o que queria antes mesmo de conseguir expressar em palavras a sua vontade. Era alto, loiro, branco. Branco como o marfim. Após poucos dias de aula, tornou-se o centro das atenções de um grupo de meninas da classe. Entretanto, foram a indiferença e a beleza generosa de Catarina que despertaram seu real interesse.
     O primeiro passo foi aproximar-se nos intervalos das aulas para conversar sobre matérias, colegas e professores. Depois de alguns dias, já se prontificava a carregar os materiais da garota e a acompanhá-la até a porta de casa. Estava apaixonado, sem volta. Após alguns meses de convívio e declarações recíprocas, ambos resolveram assumir o namoro.
     Pareciam feitos um para o outro: a mistura perfeita, peles que se complementavam, como Yin e Yang. Sol e lua, dia e noite, branco e preto; um casal de encher os olhos. Como mandava o protocolo, era chegado o momento de um conhecer a família do outro. Todos ansiosos: os dois apaixonados e seus pais. Assim, na data convencionada Alberto entrou na sala da sua requintada casa, de mãos dadas com Catarina.
     Os pais do garoto, ao examinarem da cabeça aos pés a sua tão famigerada namorada, não demonstraram qualquer empolgação. Pareciam incomodados, na verdade. Almoçaram todos juntos, sobre a mesma mesa, mas com um clima notoriamente tenso pairando no ambiente. A menina estava se sentindo deslocada, incomodada com o silêncio dos pais de Alberto e com os olhares que deles recebia. Bocas fechadas, mas olhos expressivos, que falavam por si. Olhos de desconforto, de reprovação, de aversão... de preconceito.
     Quando a sós, Catarina tentou desabafar com Alberto, que se esforçava para evitar o assunto. Tudo para não entristecê-la. Com o passar dos dias, entretanto, ela comprovou suas suspeitas por conta própria: surpreendeu-se ao ouvir adjetivos diversos sussurrados em outros cômodos, em alguns dos momentos em que se encontrava na casa do seu amor.
     “Escurinha”, “favelada”, “neguinha”... palavras banhadas em aversão povoavam as conversas que os pais do namorado tinham entre si, sem se preocuparem em controlar o tom de voz.  E por inúmeras vezes, procurando a amada depois de estranhar seu sumiço, Alberto a encontrou encolhida no chão, com a cabeça apoiada nas pernas e a face inundada. Lágrimas que nem pela tranquilidade dele a garota conseguia conter. Lágrimas de quem se sentia menosprezada por algo que era inerente à sua pessoa, que era parte da sua identidade, portanto impossível de mudar; e que nem deveria mudar, uma vez que não a fazia melhor ou pior que ninguém. Eram como lágrimas de sangue, do mesmo sangue de tantos outros negros que fora historicamente derramado ao redor do mundo.
     Catarina sentia, pela primeira vez e na própria pele, a dor lancinante do preconceito. Notava, então, que ser negra a tornava inferior aos olhos injustos e cruéis de alguns; mais do que isso, percebia que para estes a sua cor a tornava desqualificada para se relacionar com um garoto branco.
     Alberto estava completamente dividido. De um lado, o olhar outrora intenso da amada, agora perdido, sem brilho, vazio e encharcado. Do outro, a sua família, pressionando para que terminasse o namoro e abandonasse a garota. Porque ele encontraria qualquer menina que desejasse, alguma que fosse mais “compatível e apta a fazê-lo feliz”, como os pais costumavam dizer, ignorando que Catarina já conseguia fazê-lo transbordar de felicidade. Ameaçaram inclusive suspender qualquer auxílio financeiro para o filho, enquanto ele não colocasse um ponto final em seu relacionamento.
     E em dias que se seguiram, Catarina notou com enorme pesar o seu namorado cada vez mais distante. O garoto não tomava qualquer atitude, evitava tocar no assunto, parecia fazer vista grossa para o sofrimento que ela transpirava. Ele começou a faltar às aulas, aparecendo vez ou outra; procurava-a menos, demonstrava menos afeto... até o dia em que sumiu, definitivamente.
     Já com um mau pressentimento, a abatida garota criou coragem para fazer algo que há muito se recusava: voltou à casa de Alberto, para saber qual era a razão do sumiço do amado. Quem a atendeu foi a empregada, que trazia consigo um envelope e o entregou à menina aflita por respostas. Catarina, pressentindo o teor do que estava no envelope, agradeceu à empregada e virou-se, iniciando o retorno para casa. Com o coração disparado e ainda sem coragem para abrir a carta, sentou-se em um dos bancos da praça; no banco em que costumava sentar-se para trocar carícias por horas a fio com Alberto.
     Ansiando por encerrar logo a angústia que a consumia, abriu o envelope e encontrou uma mensagem, indubitavelmente escrita de próprio punho pelo seu amor. Nela, o garoto pedia para que jamais se esquecesse de todos os momentos mágicos que passaram juntos; reiterava por diversas vezes que ela tinha conquistado sua admiração, seu carinho, seu amor. Explicava que a família não aprovava aquela relação, impondo um afastamento que ele não desejava; todavia, não tinha forças suficientes para enfrentar as ordens de seus pais, tampouco para ver as lágrimas da sua amada frente à rejeição e menosprezo com que a tratavam. Ele não queria se posicionar a favor de um lado ou do outro. Eram amores distintos em confronto. Assumiu ser covarde, ainda dependente do auxílio material familiar, o que lhe orientava a respeitar a vontade dos pais. Confessou ter chorado enquanto redigia a carta, mas nem precisaria fazer tal consideração: em algumas palavras havia borrões, manchas sobre a tinta azul da caneta. Eram evidentemente os pontos em que as lágrimas caíram e mancharam o que estava escrito. Por fim, pedia perdão por ter saído da vida da amada de maneira tão repentina, supostamente desejando que ela encontrasse outro alguém que tivesse a coragem necessária para fazê-la feliz.
     Alberto tinha se mudado. Fora morar com uma tia em outra cidade, transferido para outro colégio. O marfim tinha virado pó, que o vento levou. Catarina estava só. Foi então a sua vez de chorar, de encharcar a carta. A princípio, sentiu raiva de Alberto. Raiva da sua inércia, da sua covardia. Questionou a veracidade do amor que ele dizia sentir, perguntou-se se não haveria algum outro motivo para a partida inesperada do namorado. Não conseguia entender, não fazia sentido; não naquele momento. Não conseguiria também perdoá-lo de imediato; não enquanto sentisse aquela dor aguda no peito ao se lembrar de todas as juras de amor, de todos os planos traçados em conjunto, e que agora pareciam meras palavras vazias jogadas ao vento.
     Revoltou-se também contra os pais do garoto – criaturas vis, pequenas, limitadas. Incapazes de permitir que o próprio filho fosse feliz! Estavam cegos pelo preconceito, não se permitiam ver a beleza que há em cada ser humano, independentemente de suas características físicas. Talvez notassem toda a doçura e profundidade de Catarina, se ao menos deixassem que a garota mostrasse os valores e qualidades que trazia em si. Mas não, ela não teve tempo para isso, já que de imediato a menosprezaram, diminuíram, prejudicaram – tudo pelo fato de ser negra. Não tinham argumentos válidos, razões verdadeiras para pretenderem afastar os dois namorados.
     Branco e negro não podem se misturar? Quem disse isso? Quem teria direito a julgar a vida e os sentimentos alheios? Quem em sã consciência ousaria deslegitimar o amor sincero entre duas pessoas, analisando de longe, e pautando-se em meras características superficiais dos que se amam – características essas que não fazem um inferior ao outro? Quem se presta a esse papel certamente ainda não conheceu o verdadeiro amor. Enchem a boca para falar que o mundo precisa disso, de mais amor, mas não o conhecem, não o respeitam.
     Tiraram de Catarina uma parte de seu encantamento pelo mundo; mostraram-na como as pessoas, quando pouco esclarecidas, podem ser insensatas, cruéis, extremamente preconceituosas. Tiraram-na também a oportunidade ímpar de viver uma história de amor puro e verdadeiro por conta da cor da sua pele – o que não deve, jamais, ser fator determinante do tratamento que se confere a outra pessoa. Somos distintos apenas em aparência, o que é perfeitamente natural; enquanto semelhantes em essência, entretanto, deveríamos estar todos caminhando lado a lado, e não menosprezando ou desfavorecendo alguns com base em características que fazem parte da sua identidade e não os tornam menos gente.
     O coração da bela garota negra estava marcado com profundas feridas; o tempo as cicatrizaria, bem como traria o perdão que Alberto pediu na carta. Entretanto, a memória não permitiria que se esquecesse de que há muitas pessoas vazias, prepotentes e mal resolvidas consigo mesmas, a ponto de ousarem interferir nos sentimentos alheios e de se julgarem superiores às outras. Disso não poderia se esquecer; é questão de sobrevivência em meio a um mundo que muitas vezes se mostra hostil e desigual.
     Teria Catarina a sorte de encontrar um novo amor, tão intenso quanto o que conheceu em seus dias com Alberto? Deixariam, enfim, que vivesse uma história intensa e feliz com quem viesse a se envolver emocionalmente? Eram essas mesmas perguntas que ela se fazia naquele instante, ao perceber-se sozinha, abandonada, tendo seu amor suprimido pelo preconceito alheio.

(CONTINUA)...

* Em tempo: neste e em todos os dias, enquanto eu viver, emanarei meu reconhecimento, apoio e aplausos aos negros e a todas as pessoas que se veem marginalizadas neste mundo ainda injusto e desigual. Aos que lidam com bullying, com preconceito, com desigualdade ou com qualquer outro tormento por conta do que quer que seja, e que mesmo assim se mantêm firmes, arriscando um sorriso aqui e ali: não desistam! Danem-se os julgamentos, concepções e ofensas alheias, de quem nada soma às suas vidas; preocupem-se apenas com a voz da sua consciência. Não se condenem, não se agridam, não neguem os impulsos e peculiaridades que suas respectivas identidades lhes impõem a manifestar nesta breve existência. A beleza do mundo está justamente na pluralidade, na diversidade – o que permite que eventualmente um alguém complemente outro alguém.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Sementes do Bem



"A criança é o amor feito visível".
                                                     - Friedrich Novalis




     Todo dia é dia de ser um pouco criança. Todo dia é dia de sorrir sem motivo, de brincar com a vida, de andar descalço, se sujar, de sentir-se jovem. É importante e deveras prazeroso cultivar a essência doce de criança que há em cada um de nós. Porque ela sempre está lá, guardada em algum lugar da alma humana, até nos mais vividos anciãos.
     Quem de alguma forma me acompanha ao longo dessa existência sabe que criança é um dos meus pontos fracos. Quando vejo um pequeno na rua, logo sinto vontade de carregar, de fazer um cafuné, de cuidar. Porque é disso que criança precisa: de cuidados - carinho, atenção, educação, auxílio material, dentre outros. E através do seu cuidado você pode conquistar o amor desses seres adoráveis (o que muitas vezes não é fácil). Pois acreditem: nada é mais forte, bonito e sincero do que o amor de uma criança. Em pouco tempo ela nos rouba sorrisos e renova nossa alma. É simples: você a trata com carinho e atenção, e ela te retribui com boas risadas, mais carinho, sinceridade, pureza... uma criança pode ser um verdadeiro spa! E não creio que esse cuidado com os pequenos signifique excesso de sensibilidade; pra mim é ser humano no sentido pleno da palavra, é ser gente.
     Não é à toa que fico realmente incomodado com os casos de violência física e psicológica contra crianças que chegam ao meu conhecimento. Não entendo, não consigo! Uma criança não merece e não pode passar por isso. É como se a minha própria infância, da qual me lembro com intensa nostalgia, fosse agredida, agonizasse e perdesse o sentido. Formamos boa parte do nosso caráter quando ainda pequenos, aprendemos com exemplos. Às vezes temos nossos momentos de frieza e impaciência e nos deparamos com pirraça, bagunça (o que é, de certa forma, natural a uma criança) e outros desafios impostos pelos que estão começando a vida, mas precisamos manter a calma e pensar a longo prazo. Faz-se essencial transmitir bons valores às futuras gerações, cultivando o respeito e a tolerância desde já.
     Se dependesse de mim, todas as crianças seriam muito, muito felizes - como eu fui durante a minha saudosa infância; nada mais justo. Porque se ainda há algo capaz de alegrar esse nosso mundo que costuma se mostrar cinza e seco, trata-se  das almas angelicais dos pequenos sonhadores.
     Eu já fui criança, me orgulho em poder dizer que ainda tenho muito dessa criança em mim e espero levar esse espírito para além da vida, nem que seja na memória dos que verdadeiramente me conhecerem.