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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um Sonho Banhado em Sangue


"Acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver

meu sonho virar pesadelo".
                                         - Paulo Leminski


     Tínhamos, desde o início, a íntima sensação de que dentre as paredes de algum majestoso castelo do mundo estariam delineados os contornos do nosso futuro. Futuro certo, prometido e guardado por toda e qualquer força superior que nos rege. Tempo, Destino e o próprio Universo - todas as divindades que, de acordo com seus desígnios incontestáveis, movem as peças do grande tabuleiro da Vida e reconhecem, acompanham e abençoam os sentimentos sinceros entre os mortais -  pareciam conspirar a nosso favor. E o velho castelo, mesmo marcado pelo abandono e pela aura soturna típica dos tempos e propósitos para os quais fora erigido, seria iluminado por arte. Arte em cores e em palavras.
     Chamou-me justamente de mago das palavras quando me conheceu mais a fundo. Aprecio e exploro ao máximo as infinitas possibilidades que estas me permitem; regozijo-me ao experimentá-las das mais variadas maneiras, atribuindo distintas cargas semânticas e operando, assim, a verdadeira magia. Magia que tudo pode, feitiço poderoso tal qual o doce e magnético canto entoado pelas sereias de beleza exuberante. Um som aparentemente inofensivo, mas que pode levar os navegantes mais incautos a serem tragados para a morte certeira nas profundezas do oceano.
   
     Palavras podem conduzir ao fundo do oceano da alma, sabe-se disso. Tencionei que mergulhasse em minhas águas de braços abertos, sem qualquer ressalva ou proteção. Que deixasse que minhas ondas, mesmo intensas, lhe conduzissem em segurança a algum paraíso virgem, sem temer.
      Num belo dia, propusemo-nos a buscar o nosso castelo, juntos numa grande jornada. Enfrentamos incontáveis dragões pelo caminho, com força física, arte, magia... com sentimento concreto. Cada um à sua maneira, cada um com seus métodos; o importante é que reduzimos temporariamente os obstáculos que se apresentavam à insignificância, frente a tudo que o nosso peito transbordava.
      Encontramos, exaustos e depois de muitas montanhas, um castelo imponente, sob um céu cravejado pelas mais cintilantes estrelas. O nosso castelo estava ali, diante dos nossos olhos incrédulos. Da boca, nenhuma palavra. Mais tarde viriam sorrisos, mas naquele momento a surpresa era tamanha que o tempo parecia ter estagnado. Pareceríamos congelados, não fosse o movimento dos nossos cabelos acariciados pelos fortes ventos que dançavam no entorno. Mas voltamos a andar; precisávamos entrar e tomar posse do nosso sonho.
    Diante do grande portão, entreguei-me ao cansaço e à sensação de esforço recompensado; solucei, sucumbi - fui ao chão e, já de joelhos, minhas lágrimas encharcavam a terra. Em silêncio, com paciência e cuidado, deu-me as mãos para que me reerguesse. O portão desceu automaticamente, como se a força da nossa vontade o tivesse operado. Entramos, de peitos abertos para o inusitado.
     No interior, escur
idão total. O cheiro de perigo era forte. Voltei então a cabeça para cima e me assustei com o que vi. Próximo ao que provavelmente era o teto do castelo, havia pontos amarelos cintilantes, que piscavam e se encontravam aos pares. Não eram estrelas; pareciam olhos. Nesse instante, os candelabros do grande salão de entrada se acenderam, também automaticamente. E do teto saíram centenas de morcegos, que alçaram voo, passaram sobre nossas cabeças e rumaram sabe-se lá para onde. Nas mesmas vigas de madeira das quais partiram, entretanto, ainda se encontravam outros seres, também de cabeça para baixo, e cujos olhos continuavam a nos fitar.
     O olhar penetrante vinha de vampiros, cujos braços fechados seguravam grandes capas negras, como verdadeiras asas de morcego. Dei um passo para trás, tentei recuar, mas você me segurou vigorosamente pelo braço esquerdo. E o portão se fechou logo atrás de nós. Curiosidade e aflição começaram a me consumir.
      Inesperadamente, uma linda valsa começou a tocar no interior da velha construção: era a Segunda Valsa de Shostakovich, uma das minhas preferidas. O som me inebriava, como um canto de sereia. Não consegui perceber que àquela altura quem estava mergulhando para a morte era eu. Os vampiros desceram do teto e, ao tocarem o piso do salão, posicionaram-se aos pares e começaram a valsar à nossa volta. E você, percebendo que eu me encontrava hipnotizado demais para pensar em fugir, soltou-me o braço e me pegou gentilmente pela mão. Ainda sem entender o que se passava, mas extasiado com a situação, olhei para seu rosto, e só então pude perceber as presas proeminentes e afiadas em sua boca. Presas vampirescas, como a dos demais. Mas não me espantei, tampouco quis fugir; sabia que não conseguiria. A música, o cenário e o seu olhar haviam me possuído.
      Levou-me carinhosamente para o centro do salão e começamos a valsar. Meu pescoço à mostra prendia toda a sua atenção; seu único desejo era perfurar-me a carne, sugar toda a minha essência e me levar para as trevas. E, no exato instante em que avançaria sobre ele e se saciaria com cada gota do meu sangue, ouvi o canto de um pássaro, que interrompeu definitivamente o momento.
      Abri meus olhos; estava sonhando. Encontrava-me em casa, na cama, não no castelo. O pássaro que me acordara ainda cantava à minha janela. Você não estava ali. Não estava mais comigo. Arrepiei-me ao me lembrar do sonho. Teria sido um sonho ou um pesadelo? Confuso, me levantei e, ao passar em frente à janela, notei que o pássaro se assustou e voou para longe. Só consegui ver que era de médio porte, e tinha penas intensamente negras e brilhantes. Belas penas. Percebi que uma delas ficou no parapeito da janela, e a peguei com cautela.
     Uma linda pena, misteriosamente atraente. Notei que de sua ponta saía um líquido vermelho e tive a imediata ideia de verificar se era possível escrever com ela, utilizando-a como uma elegante caneta. Peguei então uma folha de papel em branco e me pus a esfregar a ponta sobre ela, constatando que o líquido vermelho era suficiente para delinear perfeitamente as palavras. E escrevi sobre o meu sonho, para que não me esquecesse dele.     
     Só ao fim, quando todas as palavras que aqui se encontram estiverem expressas e eu colocar o último ponto final, perceberei o cheiro de sangue que emana do papel. Nada de tinta, nada de grafite, tampouco de aquarela: era sangue que escorria da pena, e com ele todas estas palavras foram grafadas. Nosso sonho agora tem o cheiro inconfundível do líquido vermelho que circula em nossas veias.
     E em algum plano paralelo, sei que nosso castelo ruiu instantaneamente, levantando uma imensa nuvem de poeira, visível a grandes distâncias.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Grande Segredo de um Senhor Solitário



  

"O amor é a poesia dos sentidos. Ou é sublime, ou não existe. Quando existe, existe para todo o sempre e aumenta cada vez mais".
                                                           -Honoré de Balzac





     Emílio era uma figura austera. O típico “velho rabugento”, “ranzinza”, adjetivos que diversas vezes extraíra dos sussurros proferidos pela boca de vizinhos e de Clarice, sua empregada de longa data. A idade avançada – estimada pelos curiosos em cerca de oitenta anos - não comprometeu sua audição; subestimavam-no, acreditando que era incapaz de compreender à distância as palavras que o criticavam. Mas ele sempre ouvia.

     Pouco se sabia sobre sua vida, embora morasse no mesmo lugar há muitos anos. Fechado e indelicado como era, não permitiria maiores aproximações de terceiros interessados em conhecê-lo melhor. O que todos sabiam é que morava completamente só - talvez por isso se mostrasse sempre tão amargo - mas o resto era um mistério. Não tinha ninguém. Alguns se compadeciam em função disso, mas logo voltavam a lhe maldizer, uma vez que sempre implicava com os serviços de Clarice, com o barulho da rua, com as crianças que brincavam em frente à sua velha casa. Implicava com tudo, parecia viver em função disso, e não demonstrava sentimentos por qualquer coisa ou pessoa.
     A casa, visivelmente antiga, tinha objetos de alto valor. Não sabiam a origem do seu dinheiro, mas era nítida a vida confortável que aquele senhor sempre levou. A mobília rústica estava incrivelmente bem conservada. Tudo de extremo requinte e bom gosto. Todavia, era uma casa fria, escura. Dizem que uma residência adquire em pouco tempo a essência do proprietário; talvez resida aí a explicação para aquela aura pesada. O próprio sol parecia recusar-se a iluminar o ambiente.
     Naquele dia, Clarice perguntou ao patrão se poderia levar o filho, Caio, para passar a tarde com ela, enquanto terminava o serviço. O garoto sairia mais cedo da creche e não podia ficar sozinho. Emílio resmungou, deixando claro que não gostava de crianças, mas concedeu a permissão, já que não havia outro jeito. Pouco depois de virar as costas para a empregada, escutou um sussurro. “Velho mal amado”, foi o que saiu da boca de Clarice. Ficou momentaneamente paralisado. Não, isso não. Velho, tudo bem, mas mal amado ele não era. Aquilo o impactou mais que de costume. Sem dizer uma palavra, arrastou os chinelos até um dos quartos da casa.
     Era um quarto que se encontrava sempre fechado. Não gostava que entrassem ali. Nem mesmo Clarice tinha permissão para fazer a faxina sem prévia autorização. Caminhou lentamente até a cômoda encostada em uma das paredes, levantou o fundo falso da última gaveta e tirou de lá uma chave. Com esta, abriu a primeira gaveta, sempre cuidadosamente trancada. Em meio a inúmeras fotos antigas, papéis amarelados e outras recordações, encontrou a caixinha de música. Esteve ali o tempo todo, devidamente guardada. Foi com ela que pediu Otília em namoro, num dos bancos da praça, muitos anos atrás.  A mulher da sua vida – e agora dos seus sonhos – não conteve a fascinação e as lágrimas ao erguer a tampa da caixinha de música e vislumbrar a pequena bailarina dourada que girava ao som da Gymnopédie nº 1 de Erik Satie. Sem titubear, aceitou o pedido e entregou-se aos braços de Emílio, que jamais poderia se esquecer do olhar intenso da amada, uma mulher belíssima em todos os aspectos e sempre muito elegante.
     Ele agora se recordava com clareza do momento, enquanto repetia mentalmente que mal amado não era. Desejou por um instante voltar no tempo e resgatar Otília, para provar a todos que era capaz de amar com toda a sua alma. Porém, há anos essa capacidade estava enterrada, no mesmo caixão que o corpo inerte da mulher. E voltar no tempo estava além de suas possibilidades. Encontrava-se como a caixinha de música, que não mais tocava a melodia, tampouco funcionava o mecanismo que fazia a bailarina girar. Não havia mais encanto ali, a inércia tomou conta de tudo.
     Depois de refletir, respirou fundo e tomou uma decisão. Foi para o seu quarto e se pôs a escrever uma carta. Nela, os dizeres: “minha eterna Otília, não se passou sequer um único dia sem que estivesse presente em meu pensamento e em meus sonhos. Chamam-me de amargo, mal amado, frio. Mal sabem eles que me tornei o que sou hoje por conta do desgosto que sua partida me trouxe. Por que? Por que existe essa coisa chamada morte? Só para encerrar nossos sonhos? Pois saiba que você ainda vive em mim. Está com todo o vigor nas mais doces lembranças que me povoam, e nos mais mágicos dos meus sonhos. A vida já não faz mais sentido. Torço para ir ao seu encontro muito em breve. Sinto que está chegando a hora, e irei sem qualquer receio. Onde estiver, espere por mim; não me demoro, eu prometo.”
     Levantou-se, pegou a carta e saiu de casa, sem dirigir a palavra a Clarice. Também se esqueceu de fechar o quarto das lembranças e de guardar a caixinha de música, mas pouco importava, já que o objeto sequer funcionava. Tinha algo urgente a fazer. Caminhou sozinho por alguns minutos até o cemitério da cidade. Em todos aqueles anos, jamais tivera coragem de retornar ao túmulo de Otília. Naquele momento, porém, motivado pela intensidade das lembranças e das emoções, finalmente conseguiria se colocar diante dele. Ergueu a cabeça, contemplando a imensidão. Apenas os pássaros se moviam por ali.
     Lembrou-se então de momentos felizes ao lado da amada. Muitos sorrisos, beijos e felicidade. Era assim que se lembrava dela. Fechou os olhos por alguns minutos, a fim de se concentrar ainda mais nas memórias. Quando finalmente os abriu, retirou do bolso a carta que escrevera e a colocou cuidadosamente sobre a face superior do túmulo. Repousou a mão sobre ela por alguns minutos, como se pretendesse tocar novamente o corpo angelical de Otília. Depois de profundos suspiros, lutou para se recompor, contemplou mais uma vez o ambiente e se virou, voltando então para casa. Não tinha noção alguma de quanto tempo passou ali. Sem olhar para trás, jamais imaginaria que pouco depois um pássaro azul pousou na lápide, apanhou a carta com o bico e alçou voo, desaparecendo por completo na imensidão do céu.
     Ao chegar em casa, Emílio seguiu diretamente até o quarto das lembranças, para fechá-lo como de costume. Chegou à porta, que se encontrava aberta, e foi então que teve uma imensa surpresa. Lá estavam Clarice, que fazia a faxina distraída em um dos cantos, e seu filho Caio, que segurava um objeto. Era a caixinha de música com que Otília havia sido presenteada. Já preparado para dar uma bronca no garoto bisbilhoteiro, paralisou-se quando o pequeno ergueu a tampa da caixa. A Gymnopédie nº 1 começou a tocar normalmente e a bailarina do centro girava como no dia em que Otília aceitou o pedido de namoro. Ao notar a melodia repentina, Clarice se virou e percebeu também Emílio parado na porta. Preocupada com a provável reação do patrão, dirigiu-se ao filho em tom apreensivo:
- Caio, não mexa nas coisas do “seu” Emílio! Coloca isso onde você achou, anda!
      Diante da ordem da empregada, Emílio se limitou a responder:
- Não, deixe o garoto.
Foi então até o menino, passou a mão em sua cabeça, sorriu e não conteve uma lágrima, que se perdeu em algum dos sulcos da sua face enrugada. Clarice, incrédula, não sabia o que dizer. Apenas observava o patrão, que pela primeira vez ao longo de todos aqueles anos esboçava um sorriso e, mais do que isso, chorava ao demonstrar um gesto de carinho. Se contasse ninguém acreditaria, mas o “seu” Emílio tinha, afinal, um coração.
     Aquela seria a última lágrima de Emílio. Mas isso pouco lhe importava; já estava preparado e ansioso para encontrar-se com Otília, e agora tinha a certeza de que em algum lugar ela também o esperava. Poderia, enfim, partir em paz.




sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sonhar: Um Prazer Gratuito dos Mortais



"Sonhar é acordar-se para dentro."
                         -
"Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
"
                                                     - Mário Quintana




    


     Depois de um dia deveras exaustivo, troco de roupa e caminho até a cama, com o peso do mundo nas costas. Levanto o edredom, ajeito o travesseiro e finalmente me deito, entregando-me por completo ao conforto do colchão. É um prazer inenarrável poder render-se à cama após um longo dia de muitos desgastes. Fecho os olhos, sinto-me leve; a partir daí, tem início uma viagem imprevisível para um mundo de infinitas possibilidades.
      Há quem acredite que os sonhos são muito mais que meras fantasias criadas por nossa mente durante o repouso. Segundo os que assim pensam, talvez tudo o que sonhamos esteja realmente acontecendo em outro plano, constituindo uma realidade paralela, uma outra vida que se encaminha naquele momento em local diverso. Da mesma forma, talvez o que vivemos aqui e agora seja apenas um sonho, no qual a morte representaria o despertar. Talvez. Verdade ou não, trata-se de um universo fascinante, que detém minha admiração desde cedo.
      Sonhar é uma das maiores dádivas das quais podemos dispor no desenrolar da nossa mortalidade. Conhecemos pessoas e lugares que talvez sequer existam, realizamos fantasias inconfessáveis e distantes das nossas reais possibilidades, somos o que nossa imaginação nos permitir. Assim, adormecer significa entregar-se ao inusitado, mergulhar de corpo e alma em um novo mistério que se encerra com o despertar.
      Trata-se, todavia, de uma viagem arriscada, como tudo que é capaz de nos proporcionar prazer nesta vida. Podemos ficar temporariamente presos em cenas que dariam perfeitos roteiros de filmes de terror: os pesadelos. Vivenciamos, ainda que em um curto espaço de tempo, situações de extrema aflição, ficando cara a cara com alguns dos nossos maiores medos. É certo, porém, que sempre há alguém em especial que, desde que nos visite enquanto dormimos, transforma qualquer pesadelo em um sonho inesquecível.
      Assim, quando finalmente adormeci naquele momento, sonhei que procurava nas margens barrentas de um rio furioso algumas pedras mais brilhantes, daquelas que não passam despercebidas aos olhares mais atentos. E passei dias e dias procurando, em um sonho que se repete por diversas noites e parece não ter fim. Ainda estou à procura, sempre me deparando com algumas pelo caminho. Umas são cacos de vidro ou quaisquer outros materiais que brilham timidamente e não têm valor significativo, ilusões temporárias; há outras que são mais brilhantes, sem dúvidas, mas que ainda não me cativaram a ponto de desejar lapidá-las e carregá-las comigo.
      Chegará o dia, enfim, em que já cansado da procura encontrarei, em mais um destes sonhos, uma pedra diferente, joia lapidada por si só e de valor humanamente inestimável. Minhas lágrimas molharão a areia daquilo que outrora fora o rio, já seco a essa altura da vida. Guardarei aquela pequena pedra em um dos bolsos e desaparecerei no horizonte, com uma alegria incomparável.
      E quando finalmente os passarinhos cantarem lá fora, anunciando a chegada de um novo dia, despertarei e abrirei os olhos, percebendo que o sonho chegou ao fim. Esbanjarei, então, um sorriso do tamanho de tal sonho, ao me certificar de que ele, na verdade, não acabou: minha joia preciosa, encontrada depois de anos em meio a todo aquele barro, estará dormindo despretensiosamente ao meu lado.

      Porque muitos sonhos podem, sim, tornar-se realidade. Portanto, feche os olhos e se permita sonhar cada vez mais!



sábado, 4 de maio de 2013

Sob o Brilho do Luar



"Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha
é com o súbito espanto da primeira vez?"
                                                                   - Mário Quintana




  





      O Sol começa a se recolher e ela vai ganhando evidência. Quer exibir-se majestosa como nunca, inundando a imensidão com sua aura de mistério. A Lua, dádiva divina para deleite dos mortais, fonte de inspiração para os poetas da alma, hipnotiza os apaixonados e ilumina as mais doces serenatas.
      É por isso que ficamos ali, inertes, sentados lado a lado sobre a grama de qualquer lugar, por horas a fio. Nenhuma palavra, diante da certeza de que qualquer ruído alheio aos da própria noite pode comprometer a magia do momento. Palavras são desnecessárias. Bastam nossos olhares emocionados voltados para aquela beleza incomparável, nossos corpos quase colados, os sentimentos que nos unem e ela, a Lua, testemunha silente de incontáveis juras de amor.
      O fascínio é tanto que ergo um dos meus braços em direção ao céu, em vão. Por um breve momento desejei tocá-la, queria poder ter todo aquele brilho entre meus dedos, ainda que momentaneamente. Queria, sobretudo, poder entregá-la a quem suspira comigo diante de tal espetáculo gratuito. Concluo, porém, que sou pequeno e imperfeito demais para ter tamanha oportunidade.
      Depois de ousar obtê-la, pondero e percebo a injustiça de retirar toda aquela beleza do céu que contemplamos: seus outros admiradores ficariam naturalmente inconsoláveis! Melhor deixá-la logo ali, ao quase-alcance de todos. Enquanto isso, satisfaço-me com as estrelas que vejo ao explorar o céu da sua boca em mais um beijo, ainda que de olhos fechados. Isto pouco importa; durante a noite, pouco se vê com os olhos, muito mais com o coração. Agora, é a Lua que nos admira e nos brinda com a sua reluzente cumplicidade.
      E quem nos vê de longe assim, na penumbra, tão próximos e com a Lua logo ao fundo, tem a ligeira impressão de que estamos nos amando dentro dela. Um sonho que pode se tornar realidade todas as noites, até o amanhecer.