quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Pérola Negra e o Marfim




Você não precisa passar fome para que se incomode com a desigualdade social e a consequente marginalização dos menos favorecidos. Da mesma maneira, não é necessário ser negro para ser contra o racismo, nem ser homossexual para se mostrar contrário à homofobia. Também não precisa ser uma mulher para repudiar o machismo. Para ser contra qualquer forma de preconceito, portanto, não é necessário ter sido ou tornar-se uma vítima direta dele. Você só precisa reconhecer que ele existe e ser detentor(a) de um pingo de senso de humanidade.


     Catarina, uma garota que apesar da pouca idade já demonstrava sede de viver, levava sempre consigo um sorriso de gente grande, generoso e inconfundível. Trazia nos olhos o brilho de uma alma inocente, preparada para amar sem moderação. Sua família não tinha dinheiro de sobra, mas sempre viveram com conforto e muita dignidade.
     Não era uma “moreninha”, como muitos costumavam dizer, como se este fosse um termo mais agradável aos seus ouvidos. Era negra, isso sim - e negra com orgulho! Reconhecia seu devido valor, bem como a relevância, a contribuição e os sacrifícios inegáveis dos seus antepassados para a formação da sociedade plural em que se via inserida. Por todos esses motivos, jamais negaria suas origens. Jamais menosprezaria a cor da sua pele. E razões para se orgulhar não lhe faltavam: a genética tinha produzido uma joia.
     Os traços fortes e exuberantes da sua face compunham um todo simétrico e harmônico. A meiguice dos seus gestos, a delicadeza ao andar e a intensidade do seu olhar eram o prenúncio da mulher encantadora que se tornaria. Tratava-se de uma verdadeira pérola negra.
     Logo que ingressou na adolescência, Catarina conheceu Alberto. O acaso conspirou para que fossem matriculados em uma mesma turma da escola. Ele, descendente de alemães, nasceu rodeado pelo luxo e acostumou-se a ter tudo o que queria antes mesmo de conseguir expressar em palavras a sua vontade. Era alto, loiro, branco. Branco como o marfim. Após poucos dias de aula, tornou-se o centro das atenções de um grupo de meninas da classe. Entretanto, foram a indiferença e a beleza generosa de Catarina que despertaram seu real interesse.
     O primeiro passo foi aproximar-se nos intervalos das aulas para conversar sobre matérias, colegas e professores. Depois de alguns dias, já se prontificava a carregar os materiais da garota e a acompanhá-la até a porta de casa. Estava apaixonado, sem volta. Após alguns meses de convívio e declarações recíprocas, ambos resolveram assumir o namoro.
     Pareciam feitos um para o outro: a mistura perfeita, peles que se complementavam, como Yin e Yang. Sol e lua, dia e noite, branco e preto; um casal de encher os olhos. Como mandava o protocolo, era chegado o momento de um conhecer a família do outro. Todos ansiosos: os dois apaixonados e seus pais. Assim, na data convencionada Alberto entrou na sala da sua requintada casa, de mãos dadas com Catarina.
     Os pais do garoto, ao examinarem da cabeça aos pés a sua tão famigerada namorada, não demonstraram qualquer empolgação. Pareciam incomodados, na verdade. Almoçaram todos juntos, sobre a mesma mesa, mas com um clima notoriamente tenso pairando no ambiente. A menina estava se sentindo deslocada, incomodada com o silêncio dos pais de Alberto e com os olhares que deles recebia. Bocas fechadas, mas olhos expressivos, que falavam por si. Olhos de desconforto, de reprovação, de aversão... de preconceito.
     Quando a sós, Catarina tentou desabafar com Alberto, que se esforçava para evitar o assunto. Tudo para não entristecê-la. Com o passar dos dias, entretanto, ela comprovou suas suspeitas por conta própria: surpreendeu-se ao ouvir adjetivos diversos sussurrados em outros cômodos, em alguns dos momentos em que se encontrava na casa do seu amor.
     “Escurinha”, “favelada”, “neguinha”... palavras banhadas em aversão povoavam as conversas que os pais do namorado tinham entre si, sem se preocuparem em controlar o tom de voz.  E por inúmeras vezes, procurando a amada depois de estranhar seu sumiço, Alberto a encontrou encolhida no chão, com a cabeça apoiada nas pernas e a face inundada. Lágrimas que nem pela tranquilidade dele a garota conseguia conter. Lágrimas de quem se sentia menosprezada por algo que era inerente à sua pessoa, que era parte da sua identidade, portanto impossível de mudar; e que nem deveria mudar, uma vez que não a fazia melhor ou pior que ninguém. Eram como lágrimas de sangue, do mesmo sangue de tantos outros negros que fora historicamente derramado ao redor do mundo.
     Catarina sentia, pela primeira vez e na própria pele, a dor lancinante do preconceito. Notava, então, que ser negra a tornava inferior aos olhos injustos e cruéis de alguns; mais do que isso, percebia que para estes a sua cor a tornava desqualificada para se relacionar com um garoto branco.
     Alberto estava completamente dividido. De um lado, o olhar outrora intenso da amada, agora perdido, sem brilho, vazio e encharcado. Do outro, a sua família, pressionando para que terminasse o namoro e abandonasse a garota. Porque ele encontraria qualquer menina que desejasse, alguma que fosse mais “compatível e apta a fazê-lo feliz”, como os pais costumavam dizer, ignorando que Catarina já conseguia fazê-lo transbordar de felicidade. Ameaçaram inclusive suspender qualquer auxílio financeiro para o filho, enquanto ele não colocasse um ponto final em seu relacionamento.
     E em dias que se seguiram, Catarina notou com enorme pesar o seu namorado cada vez mais distante. O garoto não tomava qualquer atitude, evitava tocar no assunto, parecia fazer vista grossa para o sofrimento que ela transpirava. Ele começou a faltar às aulas, aparecendo vez ou outra; procurava-a menos, demonstrava menos afeto... até o dia em que sumiu, definitivamente.
     Já com um mau pressentimento, a abatida garota criou coragem para fazer algo que há muito se recusava: voltou à casa de Alberto, para saber qual era a razão do sumiço do amado. Quem a atendeu foi a empregada, que trazia consigo um envelope e o entregou à menina aflita por respostas. Catarina, pressentindo o teor do que estava no envelope, agradeceu à empregada e virou-se, iniciando o retorno para casa. Com o coração disparado e ainda sem coragem para abrir a carta, sentou-se em um dos bancos da praça; no banco em que costumava sentar-se para trocar carícias por horas a fio com Alberto.
     Ansiando por encerrar logo a angústia que a consumia, abriu o envelope e encontrou uma mensagem, indubitavelmente escrita de próprio punho pelo seu amor. Nela, o garoto pedia para que jamais se esquecesse de todos os momentos mágicos que passaram juntos; reiterava por diversas vezes que ela tinha conquistado sua admiração, seu carinho, seu amor. Explicava que a família não aprovava aquela relação, impondo um afastamento que ele não desejava; todavia, não tinha forças suficientes para enfrentar as ordens de seus pais, tampouco para ver as lágrimas da sua amada frente à rejeição e menosprezo com que a tratavam. Ele não queria se posicionar a favor de um lado ou do outro. Eram amores distintos em confronto. Assumiu ser covarde, ainda dependente do auxílio material familiar, o que lhe orientava a respeitar a vontade dos pais. Confessou ter chorado enquanto redigia a carta, mas nem precisaria fazer tal consideração: em algumas palavras havia borrões, manchas sobre a tinta azul da caneta. Eram evidentemente os pontos em que as lágrimas caíram e mancharam o que estava escrito. Por fim, pedia perdão por ter saído da vida da amada de maneira tão repentina, supostamente desejando que ela encontrasse outro alguém que tivesse a coragem necessária para fazê-la feliz.
     Alberto tinha se mudado. Fora morar com uma tia em outra cidade, transferido para outro colégio. O marfim tinha virado pó, que o vento levou. Catarina estava só. Foi então a sua vez de chorar, de encharcar a carta. A princípio, sentiu raiva de Alberto. Raiva da sua inércia, da sua covardia. Questionou a veracidade do amor que ele dizia sentir, perguntou-se se não haveria algum outro motivo para a partida inesperada do namorado. Não conseguia entender, não fazia sentido; não naquele momento. Não conseguiria também perdoá-lo de imediato; não enquanto sentisse aquela dor aguda no peito ao se lembrar de todas as juras de amor, de todos os planos traçados em conjunto, e que agora pareciam meras palavras vazias jogadas ao vento.
     Revoltou-se também contra os pais do garoto – criaturas vis, pequenas, limitadas. Incapazes de permitir que o próprio filho fosse feliz! Estavam cegos pelo preconceito, não se permitiam ver a beleza que há em cada ser humano, independentemente de suas características físicas. Talvez notassem toda a doçura e profundidade de Catarina, se ao menos deixassem que a garota mostrasse os valores e qualidades que trazia em si. Mas não, ela não teve tempo para isso, já que de imediato a menosprezaram, diminuíram, prejudicaram – tudo pelo fato de ser negra. Não tinham argumentos válidos, razões verdadeiras para pretenderem afastar os dois namorados.
     Branco e negro não podem se misturar? Quem disse isso? Quem teria direito a julgar a vida e os sentimentos alheios? Quem em sã consciência ousaria deslegitimar o amor sincero entre duas pessoas, analisando de longe, e pautando-se em meras características superficiais dos que se amam – características essas que não fazem um inferior ao outro? Quem se presta a esse papel certamente ainda não conheceu o verdadeiro amor. Enchem a boca para falar que o mundo precisa disso, de mais amor, mas não o conhecem, não o respeitam.
     Tiraram de Catarina uma parte de seu encantamento pelo mundo; mostraram-na como as pessoas, quando pouco esclarecidas, podem ser insensatas, cruéis, extremamente preconceituosas. Tiraram-na também a oportunidade ímpar de viver uma história de amor puro e verdadeiro por conta da cor da sua pele – o que não deve, jamais, ser fator determinante do tratamento que se confere a outra pessoa. Somos distintos apenas em aparência, o que é perfeitamente natural; enquanto semelhantes em essência, entretanto, deveríamos estar todos caminhando lado a lado, e não menosprezando ou desfavorecendo alguns com base em características que fazem parte da sua identidade e não os tornam menos gente.
     O coração da bela garota negra estava marcado com profundas feridas; o tempo as cicatrizaria, bem como traria o perdão que Alberto pediu na carta. Entretanto, a memória não permitiria que se esquecesse de que há muitas pessoas vazias, prepotentes e mal resolvidas consigo mesmas, a ponto de ousarem interferir nos sentimentos alheios e de se julgarem superiores às outras. Disso não poderia se esquecer; é questão de sobrevivência em meio a um mundo que muitas vezes se mostra hostil e desigual.
     Teria Catarina a sorte de encontrar um novo amor, tão intenso quanto o que conheceu em seus dias com Alberto? Deixariam, enfim, que vivesse uma história intensa e feliz com quem viesse a se envolver emocionalmente? Eram essas mesmas perguntas que ela se fazia naquele instante, ao perceber-se sozinha, abandonada, tendo seu amor suprimido pelo preconceito alheio.

(CONTINUA)...

* Em tempo: neste e em todos os dias, enquanto eu viver, emanarei meu reconhecimento, apoio e aplausos aos negros e a todas as pessoas que se veem marginalizadas neste mundo ainda injusto e desigual. Aos que lidam com bullying, com preconceito, com desigualdade ou com qualquer outro tormento por conta do que quer que seja, e que mesmo assim se mantêm firmes, arriscando um sorriso aqui e ali: não desistam! Danem-se os julgamentos, concepções e ofensas alheias, de quem nada soma às suas vidas; preocupem-se apenas com a voz da sua consciência. Não se condenem, não se agridam, não neguem os impulsos e peculiaridades que suas respectivas identidades lhes impõem a manifestar nesta breve existência. A beleza do mundo está justamente na pluralidade, na diversidade – o que permite que eventualmente um alguém complemente outro alguém.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Sementes do Bem



"A criança é o amor feito visível".
                                                     - Friedrich Novalis




     Todo dia é dia de ser um pouco criança. Todo dia é dia de sorrir sem motivo, de brincar com a vida, de andar descalço, se sujar, de sentir-se jovem. É importante e deveras prazeroso cultivar a essência doce de criança que há em cada um de nós. Porque ela sempre está lá, guardada em algum lugar da alma humana, até nos mais vividos anciãos.
     Quem de alguma forma me acompanha ao longo dessa existência sabe que criança é um dos meus pontos fracos. Quando vejo um pequeno na rua, logo sinto vontade de carregar, de fazer um cafuné, de cuidar. Porque é disso que criança precisa: de cuidados - carinho, atenção, educação, auxílio material, dentre outros. E através do seu cuidado você pode conquistar o amor desses seres adoráveis (o que muitas vezes não é fácil). Pois acreditem: nada é mais forte, bonito e sincero do que o amor de uma criança. Em pouco tempo ela nos rouba sorrisos e renova nossa alma. É simples: você a trata com carinho e atenção, e ela te retribui com boas risadas, mais carinho, sinceridade, pureza... uma criança pode ser um verdadeiro spa! E não creio que esse cuidado com os pequenos signifique excesso de sensibilidade; pra mim é ser humano no sentido pleno da palavra, é ser gente.
     Não é à toa que fico realmente incomodado com os casos de violência física e psicológica contra crianças que chegam ao meu conhecimento. Não entendo, não consigo! Uma criança não merece e não pode passar por isso. É como se a minha própria infância, da qual me lembro com intensa nostalgia, fosse agredida, agonizasse e perdesse o sentido. Formamos boa parte do nosso caráter quando ainda pequenos, aprendemos com exemplos. Às vezes temos nossos momentos de frieza e impaciência e nos deparamos com pirraça, bagunça (o que é, de certa forma, natural a uma criança) e outros desafios impostos pelos que estão começando a vida, mas precisamos manter a calma e pensar a longo prazo. Faz-se essencial transmitir bons valores às futuras gerações, cultivando o respeito e a tolerância desde já.
     Se dependesse de mim, todas as crianças seriam muito, muito felizes - como eu fui durante a minha saudosa infância; nada mais justo. Porque se ainda há algo capaz de alegrar esse nosso mundo que costuma se mostrar cinza e seco, trata-se  das almas angelicais dos pequenos sonhadores.
     Eu já fui criança, me orgulho em poder dizer que ainda tenho muito dessa criança em mim e espero levar esse espírito para além da vida, nem que seja na memória dos que verdadeiramente me conhecerem.



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Grande Segredo de um Senhor Solitário



  

"O amor é a poesia dos sentidos. Ou é sublime, ou não existe. Quando existe, existe para todo o sempre e aumenta cada vez mais".
                                                           -Honoré de Balzac





     Emílio era uma figura austera. O típico “velho rabugento”, “ranzinza”, adjetivos que diversas vezes extraíra dos sussurros proferidos pela boca de vizinhos e de Clarice, sua empregada de longa data. A idade avançada – estimada pelos curiosos em cerca de oitenta anos - não comprometeu sua audição; subestimavam-no, acreditando que era incapaz de compreender à distância as palavras que o criticavam. Mas ele sempre ouvia.

     Pouco se sabia sobre sua vida, embora morasse no mesmo lugar há muitos anos. Fechado e indelicado como era, não permitiria maiores aproximações de terceiros interessados em conhecê-lo melhor. O que todos sabiam é que morava completamente só - talvez por isso se mostrasse sempre tão amargo - mas o resto era um mistério. Não tinha ninguém. Alguns se compadeciam em função disso, mas logo voltavam a lhe maldizer, uma vez que sempre implicava com os serviços de Clarice, com o barulho da rua, com as crianças que brincavam em frente à sua velha casa. Implicava com tudo, parecia viver em função disso, e não demonstrava sentimentos por qualquer coisa ou pessoa.
     A casa, visivelmente antiga, tinha objetos de alto valor. Não sabiam a origem do seu dinheiro, mas era nítida a vida confortável que aquele senhor sempre levou. A mobília rústica estava incrivelmente bem conservada. Tudo de extremo requinte e bom gosto. Todavia, era uma casa fria, escura. Dizem que uma residência adquire em pouco tempo a essência do proprietário; talvez resida aí a explicação para aquela aura pesada. O próprio sol parecia recusar-se a iluminar o ambiente.
     Naquele dia, Clarice perguntou ao patrão se poderia levar o filho, Caio, para passar a tarde com ela, enquanto terminava o serviço. O garoto sairia mais cedo da creche e não podia ficar sozinho. Emílio resmungou, deixando claro que não gostava de crianças, mas concedeu a permissão, já que não havia outro jeito. Pouco depois de virar as costas para a empregada, escutou um sussurro. “Velho mal amado”, foi o que saiu da boca de Clarice. Ficou momentaneamente paralisado. Não, isso não. Velho, tudo bem, mas mal amado ele não era. Aquilo o impactou mais que de costume. Sem dizer uma palavra, arrastou os chinelos até um dos quartos da casa.
     Era um quarto que se encontrava sempre fechado. Não gostava que entrassem ali. Nem mesmo Clarice tinha permissão para fazer a faxina sem prévia autorização. Caminhou lentamente até a cômoda encostada em uma das paredes, levantou o fundo falso da última gaveta e tirou de lá uma chave. Com esta, abriu a primeira gaveta, sempre cuidadosamente trancada. Em meio a inúmeras fotos antigas, papéis amarelados e outras recordações, encontrou a caixinha de música. Esteve ali o tempo todo, devidamente guardada. Foi com ela que pediu Otília em namoro, num dos bancos da praça, muitos anos atrás.  A mulher da sua vida – e agora dos seus sonhos – não conteve a fascinação e as lágrimas ao erguer a tampa da caixinha de música e vislumbrar a pequena bailarina dourada que girava ao som da Gymnopédie nº 1 de Erik Satie. Sem titubear, aceitou o pedido e entregou-se aos braços de Emílio, que jamais poderia se esquecer do olhar intenso da amada, uma mulher belíssima em todos os aspectos e sempre muito elegante.
     Ele agora se recordava com clareza do momento, enquanto repetia mentalmente que mal amado não era. Desejou por um instante voltar no tempo e resgatar Otília, para provar a todos que era capaz de amar com toda a sua alma. Porém, há anos essa capacidade estava enterrada, no mesmo caixão que o corpo inerte da mulher. E voltar no tempo estava além de suas possibilidades. Encontrava-se como a caixinha de música, que não mais tocava a melodia, tampouco funcionava o mecanismo que fazia a bailarina girar. Não havia mais encanto ali, a inércia tomou conta de tudo.
     Depois de refletir, respirou fundo e tomou uma decisão. Foi para o seu quarto e se pôs a escrever uma carta. Nela, os dizeres: “minha eterna Otília, não se passou sequer um único dia sem que estivesse presente em meu pensamento e em meus sonhos. Chamam-me de amargo, mal amado, frio. Mal sabem eles que me tornei o que sou hoje por conta do desgosto que sua partida me trouxe. Por que? Por que existe essa coisa chamada morte? Só para encerrar nossos sonhos? Pois saiba que você ainda vive em mim. Está com todo o vigor nas mais doces lembranças que me povoam, e nos mais mágicos dos meus sonhos. A vida já não faz mais sentido. Torço para ir ao seu encontro muito em breve. Sinto que está chegando a hora, e irei sem qualquer receio. Onde estiver, espere por mim; não me demoro, eu prometo.”
     Levantou-se, pegou a carta e saiu de casa, sem dirigir a palavra a Clarice. Também se esqueceu de fechar o quarto das lembranças e de guardar a caixinha de música, mas pouco importava, já que o objeto sequer funcionava. Tinha algo urgente a fazer. Caminhou sozinho por alguns minutos até o cemitério da cidade. Em todos aqueles anos, jamais tivera coragem de retornar ao túmulo de Otília. Naquele momento, porém, motivado pela intensidade das lembranças e das emoções, finalmente conseguiria se colocar diante dele. Ergueu a cabeça, contemplando a imensidão. Apenas os pássaros se moviam por ali.
     Lembrou-se então de momentos felizes ao lado da amada. Muitos sorrisos, beijos e felicidade. Era assim que se lembrava dela. Fechou os olhos por alguns minutos, a fim de se concentrar ainda mais nas memórias. Quando finalmente os abriu, retirou do bolso a carta que escrevera e a colocou cuidadosamente sobre a face superior do túmulo. Repousou a mão sobre ela por alguns minutos, como se pretendesse tocar novamente o corpo angelical de Otília. Depois de profundos suspiros, lutou para se recompor, contemplou mais uma vez o ambiente e se virou, voltando então para casa. Não tinha noção alguma de quanto tempo passou ali. Sem olhar para trás, jamais imaginaria que pouco depois um pássaro azul pousou na lápide, apanhou a carta com o bico e alçou voo, desaparecendo por completo na imensidão do céu.
     Ao chegar em casa, Emílio seguiu diretamente até o quarto das lembranças, para fechá-lo como de costume. Chegou à porta, que se encontrava aberta, e foi então que teve uma imensa surpresa. Lá estavam Clarice, que fazia a faxina distraída em um dos cantos, e seu filho Caio, que segurava um objeto. Era a caixinha de música com que Otília havia sido presenteada. Já preparado para dar uma bronca no garoto bisbilhoteiro, paralisou-se quando o pequeno ergueu a tampa da caixa. A Gymnopédie nº 1 começou a tocar normalmente e a bailarina do centro girava como no dia em que Otília aceitou o pedido de namoro. Ao notar a melodia repentina, Clarice se virou e percebeu também Emílio parado na porta. Preocupada com a provável reação do patrão, dirigiu-se ao filho em tom apreensivo:
- Caio, não mexa nas coisas do “seu” Emílio! Coloca isso onde você achou, anda!
      Diante da ordem da empregada, Emílio se limitou a responder:
- Não, deixe o garoto.
Foi então até o menino, passou a mão em sua cabeça, sorriu e não conteve uma lágrima, que se perdeu em algum dos sulcos da sua face enrugada. Clarice, incrédula, não sabia o que dizer. Apenas observava o patrão, que pela primeira vez ao longo de todos aqueles anos esboçava um sorriso e, mais do que isso, chorava ao demonstrar um gesto de carinho. Se contasse ninguém acreditaria, mas o “seu” Emílio tinha, afinal, um coração.
     Aquela seria a última lágrima de Emílio. Mas isso pouco lhe importava; já estava preparado e ansioso para encontrar-se com Otília, e agora tinha a certeza de que em algum lugar ela também o esperava. Poderia, enfim, partir em paz.




sábado, 10 de agosto de 2013

Tal Pai, Tal Filho





Dedicado ao mais importante dos heróis.




    



     Recordo-me com clareza de alguns momentos da minha infância. Foi tudo mágico, hoje me dou conta. Ainda o é, nas doces lembranças. Era comum, após um dia exaustivo para uma criança, adormecer no colo da minha mãe ali mesmo, no sofá da sala e com a televisão ligada. Lutava para me manter acordado, mas muitas vezes era inútil; sucumbia em pouco tempo à manta dos sonhos. E só iria reabrir os olhos no dia seguinte, já na minha cama, coberto, aquecido. Como teria parado ali, se adormeci no sofá? Mágica? Não, um mágico. Meu pai, o mágico que sempre conseguiu tirar da cartola os melhores motivos para meus sorrisos. 

      Transmitiu-me desde cedo seus valores, carinho e compreensão; tem o ombro mais amigo, leal ao extremo, que se faz presente nos bons e maus momentos. Comemora cada uma das minhas conquistas sem poupar alegrias, orgulha-se delas mais do que eu. Nossas discussões, cada vez mais raras, sempre terminam em carinho mútuo, já que não suporta me ver chateado por muito tempo e abaixa a guarda à sua maneira para afastar qualquer ressentimento, sempre me arrancando sorrisos involuntários.
      Nos momentos em que mais precisei não se mostrou alheio, tampouco se acovardou; enfrentou ao meu lado situações delicadas, agindo com extrema serenidade, norteado pelo seu amor paternal. Quando mais precisei de apoio tive a boa surpresa de encontrar o conforto de um abraço sincero, compreensivo e generoso.
      Sei que se pudesse me daria o mundo para garantir minha plena felicidade, pai; como retribuição, se estivesse a meu alcance eu te daria a eternidade, porque já sou feliz por tê-lo aqui, comigo, e adoraria que esse privilégio se perpetuasse. Minha felicidade começa a partir do momento em que me orgulho de descender diretamente da pessoa incomparável que você é. Serei eternamente grato ao feliz acaso de ser seu filho e a toda a imensa contribuição que sempre me deu para que me tornasse quem sou hoje. Tal pai, tal filho.
      E, parafraseando outro dos meus textos, que aqueles cujos pais já não se encontram entre nós se sintam abraçados e confortados pelo fato de que, se chegaram a ser as pessoas bem sucedidas de hoje, grande foi a responsabilidade do homem que os gerou para tal resultado. Ainda que não tenham convivido com a figura paterna, a Genética corrobora o que acabei de dizer, bem como a certeza de que a vida que lhes foi concedida já é uma incontestável prova de amor.