"O amor é a poesia dos sentidos. Ou é
sublime, ou não existe. Quando existe, existe para todo
o sempre e aumenta cada vez mais".
-Honoré de Balzac
Emílio era uma figura austera. O típico
“velho rabugento”, “ranzinza”, adjetivos que diversas vezes extraíra dos
sussurros proferidos pela boca de vizinhos e de Clarice, sua empregada de longa
data. A idade avançada – estimada pelos curiosos em cerca de oitenta anos - não
comprometeu sua audição; subestimavam-no, acreditando que era incapaz de
compreender à distância as palavras que o criticavam. Mas ele sempre ouvia.
Pouco se sabia sobre sua vida, embora morasse no mesmo lugar há muitos anos.
Fechado e indelicado como era, não permitiria maiores aproximações de terceiros
interessados em conhecê-lo melhor. O que todos sabiam é que morava
completamente só - talvez por isso se mostrasse sempre tão amargo - mas o resto era um mistério. Não tinha
ninguém. Alguns se compadeciam em função disso, mas logo voltavam a lhe
maldizer, uma vez que sempre implicava com os serviços de Clarice, com o
barulho da rua, com as crianças que brincavam em frente à sua velha casa. Implicava
com tudo, parecia viver em função disso, e não demonstrava sentimentos por
qualquer coisa ou pessoa.
A casa, visivelmente antiga, tinha objetos de alto valor. Não sabiam a origem
do seu dinheiro, mas era nítida a vida confortável que aquele senhor sempre
levou. A mobília rústica estava incrivelmente bem conservada. Tudo de extremo
requinte e bom gosto. Todavia, era uma casa fria, escura. Dizem que uma
residência adquire em pouco tempo a essência do proprietário; talvez resida aí
a explicação para aquela aura pesada. O próprio sol parecia recusar-se a
iluminar o ambiente.
Naquele dia, Clarice perguntou ao patrão se poderia levar o filho, Caio, para
passar a tarde com ela, enquanto terminava o serviço. O garoto sairia mais cedo
da creche e não podia ficar sozinho. Emílio resmungou, deixando claro que não
gostava de crianças, mas concedeu a permissão, já que não havia outro jeito.
Pouco depois de virar as costas para a empregada, escutou um sussurro. “Velho
mal amado”, foi o que saiu da boca de Clarice. Ficou momentaneamente
paralisado. Não, isso não. Velho, tudo bem, mas mal amado ele não era. Aquilo o
impactou mais que de costume. Sem dizer uma palavra, arrastou os chinelos até
um dos quartos da casa.
Era um quarto que se encontrava sempre fechado. Não gostava que entrassem ali.
Nem mesmo Clarice tinha permissão para fazer a faxina sem prévia autorização.
Caminhou lentamente até a cômoda encostada em uma das paredes, levantou o fundo
falso da última gaveta e tirou de lá uma chave. Com esta, abriu a primeira
gaveta, sempre cuidadosamente trancada. Em meio a inúmeras fotos antigas,
papéis amarelados e outras recordações, encontrou a caixinha de música. Esteve
ali o tempo todo, devidamente guardada. Foi com ela que pediu Otília em namoro,
num dos bancos da praça, muitos anos atrás. A mulher da sua vida – e agora dos seus sonhos
– não conteve a fascinação e as lágrimas ao erguer a tampa da caixinha de
música e vislumbrar a pequena bailarina dourada que girava ao som da Gymnopédie
nº 1 de Erik Satie. Sem titubear, aceitou o pedido e entregou-se
aos braços de Emílio, que jamais poderia se esquecer do olhar intenso da amada, uma mulher belíssima em todos os aspectos e sempre muito elegante.

Ele agora se recordava com clareza do momento, enquanto repetia mentalmente
que mal amado não era. Desejou por um instante voltar no tempo e resgatar
Otília, para provar a todos que era capaz de amar com toda a sua alma. Porém,
há anos essa capacidade estava enterrada, no mesmo caixão que o corpo inerte da
mulher. E voltar no tempo estava além de suas possibilidades. Encontrava-se como a caixinha de música, que não mais tocava a melodia, tampouco
funcionava o mecanismo que fazia a bailarina girar. Não havia mais encanto ali, a inércia tomou conta de tudo.
Depois de refletir, respirou fundo e tomou uma decisão. Foi para o seu quarto e
se pôs a escrever uma carta. Nela, os dizeres: “minha eterna Otília, não se
passou sequer um único dia sem que estivesse presente em meu pensamento e em
meus sonhos. Chamam-me de amargo, mal amado, frio. Mal sabem eles que me tornei
o que sou hoje por conta do desgosto que sua partida me trouxe. Por que? Por
que existe essa coisa chamada morte? Só para encerrar nossos sonhos? Pois saiba
que você ainda vive em mim. Está com todo o vigor nas mais doces lembranças que
me povoam, e nos mais mágicos dos meus sonhos. A vida já não faz mais sentido.
Torço para ir ao seu encontro muito em breve. Sinto que está chegando a hora, e
irei sem qualquer receio. Onde estiver, espere por mim; não me demoro, eu
prometo.”
Levantou-se, pegou a carta e saiu de casa, sem dirigir a palavra a Clarice.
Também se esqueceu de fechar o quarto das lembranças e de guardar a caixinha de
música, mas pouco importava, já que o objeto sequer funcionava. Tinha algo
urgente a fazer. Caminhou sozinho por alguns minutos até o cemitério da cidade.
Em todos aqueles anos, jamais tivera coragem de retornar ao túmulo de Otília. Naquele
momento, porém, motivado pela intensidade das lembranças e das emoções,
finalmente conseguiria se colocar diante dele. Ergueu a cabeça, contemplando a
imensidão. Apenas os pássaros se moviam por ali.
Lembrou-se então de momentos felizes ao lado da amada. Muitos sorrisos, beijos
e felicidade. Era assim que se lembrava dela. Fechou os olhos por alguns
minutos, a fim de se concentrar ainda mais nas memórias. Quando finalmente os
abriu, retirou do bolso a carta que escrevera e a colocou cuidadosamente sobre
a face superior do túmulo. Repousou a mão sobre ela por alguns minutos, como se
pretendesse tocar novamente o corpo angelical de Otília. Depois de profundos
suspiros, lutou para se recompor, contemplou mais uma vez o ambiente e se
virou, voltando então para casa. Não tinha noção alguma de quanto tempo passou
ali. Sem olhar para trás, jamais imaginaria que pouco depois um pássaro azul
pousou na lápide, apanhou a carta com o bico e alçou voo, desaparecendo por
completo na imensidão do céu.
Ao chegar em casa, Emílio seguiu diretamente até o quarto das lembranças, para
fechá-lo como de costume. Chegou à porta, que se encontrava aberta, e foi então
que teve uma imensa surpresa. Lá estavam Clarice, que fazia a faxina distraída em
um dos cantos, e seu filho Caio, que segurava um objeto. Era a caixinha de
música com que Otília havia sido presenteada. Já preparado para dar uma bronca
no garoto bisbilhoteiro, paralisou-se quando o pequeno ergueu a tampa da caixa.
A Gymnopédie nº 1 começou a tocar
normalmente e a bailarina do centro girava como no dia em que Otília aceitou o
pedido de namoro. Ao notar a melodia repentina, Clarice se virou e percebeu
também Emílio parado na porta. Preocupada com a provável reação do patrão,
dirigiu-se ao filho em tom apreensivo:
- Caio, não mexa nas coisas do “seu” Emílio! Coloca isso onde você achou, anda!
Diante da ordem da empregada, Emílio se limitou a responder:
- Não, deixe o garoto.
Foi então até o menino, passou a mão em sua cabeça, sorriu e não conteve uma
lágrima, que se perdeu em algum dos sulcos da sua face enrugada. Clarice, incrédula, não sabia o que
dizer. Apenas observava o patrão, que pela primeira vez ao longo de todos
aqueles anos esboçava um sorriso e, mais do que isso, chorava ao demonstrar um
gesto de carinho. Se contasse ninguém acreditaria, mas o “seu” Emílio tinha,
afinal, um coração.
Aquela seria a última lágrima de Emílio. Mas isso pouco lhe importava; já
estava preparado e ansioso para encontrar-se com Otília, e agora tinha a
certeza de que em algum lugar ela também o esperava. Poderia, enfim, partir em paz.
Dedicado ao mais importante dos heróis.
Recordo-me com clareza de alguns momentos da minha infância. Foi tudo mágico,
hoje me dou conta. Ainda o é, nas doces lembranças. Era comum, após um dia
exaustivo para uma criança, adormecer no colo da minha mãe ali mesmo, no sofá
da sala e com a televisão ligada. Lutava para me manter acordado, mas muitas
vezes era inútil; sucumbia em pouco tempo à manta dos sonhos. E só iria reabrir
os olhos no dia seguinte, já na minha cama, coberto, aquecido. Como teria
parado ali, se adormeci no sofá? Mágica? Não, um mágico. Meu pai, o mágico que sempre
conseguiu tirar da cartola os melhores motivos para meus sorrisos.
Transmitiu-me desde cedo seus valores, carinho e compreensão; tem o ombro mais
amigo, leal ao extremo, que se faz presente nos bons e maus momentos. Comemora
cada uma das minhas conquistas sem poupar alegrias, orgulha-se delas mais do
que eu. Nossas discussões, cada vez mais raras, sempre terminam em carinho
mútuo, já que não suporta me ver chateado por muito tempo e abaixa a guarda à
sua maneira para afastar qualquer ressentimento, sempre me arrancando sorrisos
involuntários.
Nos momentos em que mais precisei não se mostrou alheio, tampouco se acovardou;
enfrentou ao meu lado situações delicadas, agindo com extrema serenidade,
norteado pelo seu amor paternal. Quando mais precisei de apoio tive a boa
surpresa de encontrar o conforto de um abraço sincero, compreensivo e generoso.
Sei que se pudesse me daria o mundo para garantir minha plena felicidade, pai;
como retribuição, se estivesse a meu alcance eu te daria a eternidade, porque
já sou feliz por tê-lo aqui, comigo, e adoraria que esse privilégio se
perpetuasse. Minha felicidade começa a partir do momento em que me orgulho de descender
diretamente da pessoa incomparável que você é. Serei eternamente grato ao feliz
acaso de ser seu filho e a toda a imensa contribuição que sempre me deu para
que me tornasse quem sou hoje. Tal pai, tal filho.
E, parafraseando outro dos meus textos, que aqueles cujos pais já não se
encontram entre nós se sintam abraçados e confortados pelo fato de que, se
chegaram a ser as pessoas bem sucedidas de hoje, grande foi a responsabilidade
do homem que os gerou para tal resultado. Ainda que não tenham convivido com a
figura paterna, a Genética corrobora o que acabei de dizer, bem como a certeza
de que a vida que lhes foi concedida já é uma incontestável prova de amor.
"Sonhar é acordar-se para dentro."
-
"Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..."
- Mário Quintana

Depois de um dia deveras exaustivo, troco de
roupa e caminho até a cama, com o peso do mundo nas costas. Levanto o edredom,
ajeito o travesseiro e finalmente me deito, entregando-me por completo ao
conforto do colchão. É um prazer inenarrável poder render-se à cama após um
longo dia de muitos desgastes. Fecho os olhos, sinto-me leve; a partir daí, tem
início uma viagem imprevisível para um mundo de infinitas possibilidades.
Há quem acredite que os sonhos são muito mais que meras fantasias criadas por
nossa mente durante o repouso. Segundo os que assim pensam, talvez tudo o que
sonhamos esteja realmente acontecendo em outro plano, constituindo uma
realidade paralela, uma outra vida que se encaminha naquele momento em local
diverso. Da mesma forma, talvez o que vivemos aqui e agora seja apenas um
sonho, no qual a morte representaria o despertar. Talvez. Verdade ou não,
trata-se de um universo fascinante, que detém minha admiração desde cedo.
Sonhar é uma das maiores dádivas das quais podemos dispor no desenrolar da
nossa mortalidade. Conhecemos pessoas e lugares que talvez sequer existam,
realizamos fantasias inconfessáveis e distantes das nossas reais
possibilidades, somos o que nossa imaginação nos permitir. Assim, adormecer
significa entregar-se ao inusitado, mergulhar de corpo e alma em um novo
mistério que se encerra com o despertar.
Trata-se, todavia, de uma viagem arriscada, como tudo que é capaz de nos
proporcionar prazer nesta vida. Podemos ficar temporariamente presos em cenas
que dariam perfeitos roteiros de filmes de terror: os pesadelos. Vivenciamos,
ainda que em um curto espaço de tempo, situações de extrema aflição, ficando
cara a cara com alguns dos nossos maiores medos. É certo, porém, que sempre há
alguém em especial que, desde que nos visite enquanto dormimos, transforma
qualquer pesadelo em um sonho inesquecível.
Assim, quando finalmente adormeci naquele momento, sonhei que procurava nas
margens barrentas de um rio furioso algumas pedras mais brilhantes, daquelas
que não passam despercebidas aos olhares mais atentos. E passei dias e dias
procurando, em um sonho que se repete por diversas noites e parece não ter fim.
Ainda estou à procura, sempre me deparando com algumas pelo caminho. Umas são
cacos de vidro ou quaisquer outros materiais que brilham timidamente e não têm
valor significativo, ilusões temporárias; há outras que são mais brilhantes, sem
dúvidas, mas que ainda não me cativaram a ponto de desejar lapidá-las e
carregá-las comigo.
Chegará o dia, enfim, em que já cansado da procura encontrarei, em mais um
destes sonhos, uma pedra diferente, joia lapidada por si só e de valor
humanamente inestimável. Minhas lágrimas molharão a areia daquilo que outrora
fora o rio, já seco a essa altura da vida. Guardarei aquela pequena pedra em um
dos bolsos e desaparecerei no horizonte, com uma alegria incomparável.
E quando finalmente os passarinhos cantarem lá fora, anunciando a chegada de um
novo dia, despertarei e abrirei os olhos, percebendo que o sonho chegou ao fim.
Esbanjarei, então, um sorriso do tamanho de tal sonho, ao me certificar de que ele,
na verdade, não acabou: minha joia preciosa, encontrada depois de anos em meio
a todo aquele barro, estará dormindo despretensiosamente ao meu lado.
Porque muitos sonhos podem, sim, tornar-se realidade. Portanto, feche os olhos
e se permita sonhar cada vez mais!

"Os sentimentos mais genuinamente humanos logo se desumanizam na cidade."
- Eça de Queiroz
Caminho pelas ruas da grande cidade com olhar intensamente contemplativo, ansiando
enxergar além das assustadoras aparências. Não encontro maiores dificuldades, já que as
pessoas, sempre apressadas para satisfazerem seus desejos egoístas, não me
notam em meio à multidão. Assim, ninguém me interrompe em meu trajeto - sequer notam
minha presença! Território mais hostil não há. Construções cada vez maiores nos
reduzem à insignificância neste cenário frio, cinza, e a poluição leva à chuva
ácida que corrói com ferocidade a alma humana.
As pessoas parecem não viver; apenas existem. Mostram os dentes, mas não
sorriem. Produzem lágrimas, mas não choram. Perdem a oportunidade de desfrutar
do infinito prazer que reside nas coisas mais simples enquanto se preocupam com
aparências e buscam um futuro melhor que nunca chega. Eternos insatisfeitos,
têm a frustração estampada em seus semblantes cansados. Carregam nas bolsas
pequenas doses de felicidade artificial, em comprimidos que prometem milagres. Por
que dizer que seremos substituídos por máquinas no futuro, se o fato é que só
vejo gente que vive mecanicamente seus limitados dias? Talvez o futuro já tenha
chegado.
Ao longo da caminhada, encontro um senhor deitado em plena calçada, áspera e
fria. Ali se encontra por não ter um teto sob o qual se esconder. Os
transeuntes, apressados, não o percebem. É um homem invisível. Sinto que parte
de mim fica ali, com aquele senhor. Parte dos meus sentimentos, dos meus
pensamentos, não sei ao certo. Só sei que não estou inteiro depois de vê-lo em
tais condições. Mais à frente um garoto, extremamente jovem, pede ajuda para
comprar comida. Também não tem casa, não tem família, não vai à escola... só
tem a rua. Impossível ser indiferente, inevitável deixar parte de mim também
com esse garoto.
Em outro ponto, um jovem cai ao chão, com um rombo no peito deixado por uma
bala, que de perdida nada tinha. Era destinada a quem não pagasse as dívidas
contraídas com o tráfico. A alguns quarteirões, uma menina é violentada.
Tiram-lhe a inocência, a candura e os sorrisos para satisfação de desejos
patológicos, ignorando suas súplicas banhadas em lágrimas. Em cada casa, há um
negro discriminado, um homossexual vítima do preconceito alheio, uma mulher covardemente
agredida em surtos de machismo e uma criança que, presenciando tudo isso,
absorve princípios egoístas e intolerantes, demonstrando tendências agressivas.
Desta cidade emanam-se gritos que ninguém ouve. E com todos os que gritam,
deixo um pedaço de mim; meus sinceros sentimentos, um pouco da minha força de
vida, talvez.
Ao fim do percurso, sou um nada. De pedaço em pedaço, virei pó. Fiquei pelas ruas, com tudo o que vi. Afinal,
é isso que somos diante dessa imensidão devoradora das selvas de pedra: puro
pó. Que mundo é esse, em que não nos destacamos da mera poeira das ruas mais imundas?
"Vós,
que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele."
-Victor Hugo
Abriu
as cortinas da sala de estar. Manhã de inverno, frio impiedoso lá fora - e
dentro de si também. A ausência do seu amor agravava as baixas temperaturas,
estava congelando lentamente. Talvez por isso não conseguisse mais derramar
lágrimas: provavelmente já haviam se solidificado em algum lugar. Um mês,
enfim, desde a partida do seu mais verdadeiro e intenso amor. Partida esta para
um destino incerto, e sem qualquer possibilidade de retorno. Foi com a eterna
despedida que seu inverno começou.
Não mais sentia os raios solares ao abrir as cortinas; não mais ouvia a doce e
singela orquestra ensaiada pelos pássaros todas as manhãs. Aquela casa nunca
fora tão grande; o silêncio fazia eco em todos os cômodos, a cada dia mais vazios
e escuros. Não tiveram filhos – não compartilhava desse desejo. Mas agora
compreendia o receio do seu amor: não ter alguém para lhes fazer companhia em
seus últimos dias. Teimou sempre, enfatizando que não tinha paciência para
cuidar de crianças, e agora se via só, sem ter a quem deixar todo o patrimônio
que construíram e as experiências que viveram. Tomou o pouco de coragem que lhe
restava e rumou para o banheiro, a passos arrastados.
Olhou-se no espelho e se espantou com o que viu: um rosto desfigurado pelo
tempo e pela solidão. Rugas profundas denunciavam a idade. Teve rápidas
lembranças de sua juventude, agora muito distante. Recordou-se de quando se
juntava ao seu amor em banhos ousados e demorados, naquele mesmo banheiro. Entretanto,
não mais se reconhecia naquele corpo. Tocou o espelho, tencionando sentir a
própria pele no reflexo que se apresentava e acariciar aquele rosto digno de
pena. Frustrada a sua tentativa, conformou-se e seguiu para o quarto.
Contemplou a cama de casal, uma imensidão para apenas um corpo. Lembrou-se do
livro preferido do seu amor, foi até o armário, abriu uma das gavetas e o
retirou, muito empoeirado. Marcando uma das páginas estava a rosa que outrora
lhe dera, seca como a própria pele. Mais à frente, noutra página, um papel
dobrado, já amarelo: uma partitura – a “Moonlight Sonata”, de Beethoven. Era a
música que seu amor costumava tocar quando precisava relaxar. Tomou para si a
partitura e decidiu voltar para a sala.
Aproximou-se do piano, sentou-se, posicionou a partitura, sentiu o teclado.
Suspirou profundamente e então tentou reproduzir a melodia que seu amor
costumava lhes proporcionar. Outra tentativa em vão: seus dedos, agora
trêmulos, não dispunham da destreza necessária. Triste, reconheceu que o melhor
a fazer era voltar para a cama. Não sentia fome, não sentia dores, nada sentia.
Nada além de uma saudade devoradora, cruel, que o inverno e a solidão
potencializavam.
Agora na cama, olhou fixamente para o teto do quarto. Estava completamente só.
Melhor assim, não notariam sua ausência. Poderia partir em busca do abraço que
tanto lhe fazia falta sem causar sofrimento a outrem. Fechou as pálpebras.
Depois de todos aqueles dias, foi a única vez em que uma lágrima tímida brotou
de seus olhos. Repentinamente, começou a sentir o perfume do seu amor. Aquele
doce perfume era inconfundível. Mesmo sem abrir os olhos, tinha certeza de que
estava ali, cada vez mais perto, e não conteve o sorriso. Seu amor tinha vindo ao
seu encontro. Rezou muito por isso, e finalmente poderia se reencontrar com
quem mais lhe importava.
Sem qualquer
receio, deixou que o perfume guiasse sua mente. Sentiu o corpo leve, cada vez
mais leve... até não mais senti-lo. Partiu, enfim, sem se levantar, com uma
expressão plenamente serena e um leve sorriso no rosto; porque sabia que
encontraria seu amor. Não sabia como, sequer imaginava onde, mas encontraria. Neste
exato momento, talvez, já estejam se abraçando bem longe dali.