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sexta-feira, 19 de julho de 2013
Sonhar: Um Prazer Gratuito dos Mortais
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domingo, 14 de julho de 2013
Os Ecos da Selva de Pedra
"Os sentimentos mais genuinamente humanos logo se desumanizam na cidade."
- Eça de Queiroz
Caminho pelas ruas da grande cidade com olhar intensamente contemplativo, ansiando enxergar além das assustadoras aparências. Não encontro maiores dificuldades, já que as pessoas, sempre apressadas para satisfazerem seus desejos egoístas, não me notam em meio à multidão. Assim, ninguém me interrompe em meu trajeto - sequer notam minha presença! Território mais hostil não há. Construções cada vez maiores nos reduzem à insignificância neste cenário frio, cinza, e a poluição leva à chuva ácida que corrói com ferocidade a alma humana.
As pessoas parecem não viver; apenas existem. Mostram os dentes, mas não sorriem. Produzem lágrimas, mas não choram. Perdem a oportunidade de desfrutar do infinito prazer que reside nas coisas mais simples enquanto se preocupam com aparências e buscam um futuro melhor que nunca chega. Eternos insatisfeitos, têm a frustração estampada em seus semblantes cansados. Carregam nas bolsas pequenas doses de felicidade artificial, em comprimidos que prometem milagres. Por que dizer que seremos substituídos por máquinas no futuro, se o fato é que só vejo gente que vive mecanicamente seus limitados dias? Talvez o futuro já tenha chegado.
Ao longo da caminhada, encontro um senhor deitado em plena calçada, áspera e fria. Ali se encontra por não ter um teto sob o qual se esconder. Os transeuntes, apressados, não o percebem. É um homem invisível. Sinto que parte de mim fica ali, com aquele senhor. Parte dos meus sentimentos, dos meus pensamentos, não sei ao certo. Só sei que não estou inteiro depois de vê-lo em tais condições. Mais à frente um garoto, extremamente jovem, pede ajuda para comprar comida. Também não tem casa, não tem família, não vai à escola... só tem a rua. Impossível ser indiferente, inevitável deixar parte de mim também com esse garoto.
Em outro ponto, um jovem cai ao chão, com um rombo no peito deixado por uma bala, que de perdida nada tinha. Era destinada a quem não pagasse as dívidas contraídas com o tráfico. A alguns quarteirões, uma menina é violentada. Tiram-lhe a inocência, a candura e os sorrisos para satisfação de desejos patológicos, ignorando suas súplicas banhadas em lágrimas. Em cada casa, há um negro discriminado, um homossexual vítima do preconceito alheio, uma mulher covardemente agredida em surtos de machismo e uma criança que, presenciando tudo isso, absorve princípios egoístas e intolerantes, demonstrando tendências agressivas. Desta cidade emanam-se gritos que ninguém ouve. E com todos os que gritam, deixo um pedaço de mim; meus sinceros sentimentos, um pouco da minha força de vida, talvez.
Ao fim do percurso, sou um nada. De pedaço em pedaço, virei pó. Fiquei pelas ruas, com tudo o que vi. Afinal, é isso que somos diante dessa imensidão devoradora das selvas de pedra: puro pó. Que mundo é esse, em que não nos destacamos da mera poeira das ruas mais imundas?
domingo, 7 de julho de 2013
O Último Dia do Inverno
"Vós,
que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele."
-Victor Hugo
Abriu as cortinas da sala de estar. Manhã de inverno, frio impiedoso lá fora - e dentro de si também. A ausência do seu amor agravava as baixas temperaturas, estava congelando lentamente. Talvez por isso não conseguisse mais derramar lágrimas: provavelmente já haviam se solidificado em algum lugar. Um mês, enfim, desde a partida do seu mais verdadeiro e intenso amor. Partida esta para um destino incerto, e sem qualquer possibilidade de retorno. Foi com a eterna despedida que seu inverno começou.
Não mais sentia os raios solares ao abrir as cortinas; não mais ouvia a doce e singela orquestra ensaiada pelos pássaros todas as manhãs. Aquela casa nunca fora tão grande; o silêncio fazia eco em todos os cômodos, a cada dia mais vazios e escuros. Não tiveram filhos – não compartilhava desse desejo. Mas agora compreendia o receio do seu amor: não ter alguém para lhes fazer companhia em seus últimos dias. Teimou sempre, enfatizando que não tinha paciência para cuidar de crianças, e agora se via só, sem ter a quem deixar todo o patrimônio que construíram e as experiências que viveram. Tomou o pouco de coragem que lhe restava e rumou para o banheiro, a passos arrastados.
Olhou-se no espelho e se espantou com o que viu: um rosto desfigurado pelo tempo e pela solidão. Rugas profundas denunciavam a idade. Teve rápidas lembranças de sua juventude, agora muito distante. Recordou-se de quando se juntava ao seu amor em banhos ousados e demorados, naquele mesmo banheiro. Entretanto, não mais se reconhecia naquele corpo. Tocou o espelho, tencionando sentir a própria pele no reflexo que se apresentava e acariciar aquele rosto digno de pena. Frustrada a sua tentativa, conformou-se e seguiu para o quarto.
Contemplou a cama de casal, uma imensidão para apenas um corpo. Lembrou-se do livro preferido do seu amor, foi até o armário, abriu uma das gavetas e o retirou, muito empoeirado. Marcando uma das páginas estava a rosa que outrora lhe dera, seca como a própria pele. Mais à frente, noutra página, um papel dobrado, já amarelo: uma partitura – a “Moonlight Sonata”, de Beethoven. Era a música que seu amor costumava tocar quando precisava relaxar. Tomou para si a partitura e decidiu voltar para a sala.
Aproximou-se do piano, sentou-se, posicionou a partitura, sentiu o teclado. Suspirou profundamente e então tentou reproduzir a melodia que seu amor costumava lhes proporcionar. Outra tentativa em vão: seus dedos, agora trêmulos, não dispunham da destreza necessária. Triste, reconheceu que o melhor a fazer era voltar para a cama. Não sentia fome, não sentia dores, nada sentia. Nada além de uma saudade devoradora, cruel, que o inverno e a solidão potencializavam.
Agora na cama, olhou fixamente para o teto do quarto. Estava completamente só. Melhor assim, não notariam sua ausência. Poderia partir em busca do abraço que tanto lhe fazia falta sem causar sofrimento a outrem. Fechou as pálpebras. Depois de todos aqueles dias, foi a única vez em que uma lágrima tímida brotou de seus olhos. Repentinamente, começou a sentir o perfume do seu amor. Aquele doce perfume era inconfundível. Mesmo sem abrir os olhos, tinha certeza de que estava ali, cada vez mais perto, e não conteve o sorriso. Seu amor tinha vindo ao seu encontro. Rezou muito por isso, e finalmente poderia se reencontrar com quem mais lhe importava.
Sem qualquer
receio, deixou que o perfume guiasse sua mente. Sentiu o corpo leve, cada vez
mais leve... até não mais senti-lo. Partiu, enfim, sem se levantar, com uma
expressão plenamente serena e um leve sorriso no rosto; porque sabia que
encontraria seu amor. Não sabia como, sequer imaginava onde, mas encontraria. Neste
exato momento, talvez, já estejam se abraçando bem longe dali. quinta-feira, 27 de junho de 2013
A Dança dos Sentidos
"Quanto ao nosso contato, será verbalmente indescritível. Nada haverá a ser
dito; tudo e de tudo será sentido. Corpos nus, almas despidas. O simples atrito
dos nossos corpos nos momentos de intimidade gerará fagulhas de infinito prazer
e plena satisfação. Porque quando meu desejo é indomável, entrego-me de corpo e
alma. Foi sempre assim. Fui sempre assim."

Estamos a sós, finalmente. Nossos olhares se correspondem, dispensando palavras. Estabelecemos com eles um acordo tácito de entrega mútua. Tiramos sem receio as vestes que cobrem nossos corpos ansiosos. A nudez nos cai bem, e é o traje ideal para quando estamos a sós. Aproximamo-nos cada vez mais, e à medida que a distância diminui, o calor aumenta.
Nos tocamos dos pés à cabeça, e todos os nossos sentidos se mostram mais apurados que de costume. A visão nos permite contemplar a nudez que se apresenta, a beleza das formas humanas. O olfato possibilita que eu perceba o cheiro da pele, que se mistura com o perfume que me embriaga. A audição permite a compreensão dos sussurros ao pé do ouvido. Palavras ousadas, diga-se de passagem, mas pertinentes à ocasião, já que dispensamos o pudor. É com o tato que desfrutamos de cada toque, de cada beijo, dos arrepios e até dos arranhões. Há ainda o paladar, provocado quando nossa língua almeja conhecer dos variados sabores do corpo alheio. Conjunção carnal e espiritual, peles em atrito; nossos corpos dançam embolados, confundindo-se.
Agora entendo o que significa “ter química”. Juntos somos reagentes em uma equação explosiva, liberando energia para o ambiente; energia esta que escorre na forma de suor. É inverno lá fora, e os vidros se embaçam com o calor que emanamos. Ainda bem que lençóis não falam - são meras testemunhas silentes dos nossos instintos mais selvagens.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Autorretrato Simplificado
Quando me coloquei no centro das minhas divagações, outrora disse que “meu outro eu me persegue. Retorna, periodicamente. Seu reflexo no espelho não corresponde à realidade: é mera miragem no deserto de uma vida de enganos. A letra da canção é sábia: é preferível ser, indubitavelmente, uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha (e falsa) opinião formada sobre tudo.”
Anos se passaram desde então, e incontáveis foram as mudanças que marcaram meu amadurecimento. Intensificaram-se a partir do momento em que saí do seio familiar para me aventurar em outra cidade. Com isso, a saudade tornou-se uma constante em minha vida – convivo com ela diariamente, tive que aprender a domá-la. Saudade de pessoas, de lugares, de tempos que não voltam. Mas a metamorfose continua, e que assim seja até meu último suspiro. Vieram novas pessoas, novos lugares; são novos tempos. Cada dia parece uma verdadeira revolução, a anunciação do novo e do inusitado. Tornei-me cada vez mais pleno, uno. Desnudo minh'alma sem maiores receios, adquirindo a transparência dos rios virgens. Todavia, me é típica a imprevisibilidade involuntária, por vezes surpreendendo-me com meus próprios posicionamentos.
Nada temo, nem mesmo a morte; concebo-a enquanto evento futuro e inevitável do ciclo da vida, não mais que isso. Às vezes me assusta mais a ideia de envelhecer do que a de ser mortal. Mas folgo em saber que posso carregar a essência de jovem enquanto desejar, mesmo num corpo marcado pela ação implacável do tempo.
Não cultivo maus sentimentos; acredito que eles nos envenenam de dentro para fora e comprometem a vitalidade de todo o meio ao redor. Abomino injustiças, contra mim ou contra qualquer inocente. Se eu for injusto ocasionalmente, o serei apenas até perceber o equívoco. E não tenho qualquer problema em me retratar a altura, não me sinto humilhado por isso. O mesmo vale para opiniões pessoais: coloco-me à disposição para todo tipo de diálogo e não me porto de maneira intransigente – sei recuar e reconhecer devidamente um posicionamento mais preciso.
Possuo defeitos, como qualquer outro. Guiado pela minha intuição, que falha com pouca frequência, às vezes sinto antipatia à primeira vista por outrem. Porém, não me fecho ao ponto de evitar maiores aproximações, permitindo que as impressões negativas sejam afastadas com o tempo. Ouvi reiteradas vezes e de fontes diversas que tenho um tirano dentro de mim. De fato, a voz da minha consciência já se fez ecoar ensurdecedora, e por vezes ainda me assombra. Fazia de tudo para estar sempre com o controle das mais diversas situações, não admitindo qualquer falha. Ao longo destes anos, notei que até as falhas são cruciais para a ampliação da nossa bagagem de experiências. E eu falhei, falho e falharei.
Aprendi, também, que o arrependimento não compensa. Digo sempre que é melhor viver errando (e natural, inclusive) do que deixar de viver. Deve-se, porém, retirar de cada erro o máximo de aprendizado para aprimoramento pessoal e prevenção de novas falhas. Tropeçar é comum quando se caminha e o mais importante é não ficar parado: é seguir, e em frente.
Adquiri, não sei a partir de quando, uma sensatez que eu mesmo admiro... para algumas coisas. Para outras, ainda há muito o que aprender, e estou disposto a isso. Imaturidade me cansa; é um dos fatores, ao lado da falta de personalidade (típica de quem rege a vida com as frases clichês que o senso comum consolidou, acreditando que existem fórmulas prontas para se conduzir relacionamentos, por exemplo) que esgotam minha paciência com mais facilidade e quebram qualquer encantamento. Grandes feitos milimetricamente calculados nem sempre me impressionam; atento-me ao que se esconde nos gestos mais sutis, nas expressões corporais e faciais mais simples e descontraídas. E é assim que tenho conduzido minha vida: com naturalidade. Foi assim que fiz amizades sinceras, pelas quais lutaria até os limites das minhas forças, se necessário.
Já que o futuro é incerto, é imperativo viver intensamente o presente, degustando as experiências segundo a segundo. E acreditem: tudo o que foi aqui exposto constitui mera análise pessoal superficial. Jamais me decodificaria em palavras, nem os mais sábios filósofos foram capazes disso. Que outras das minhas nuances se mostrem aos poucos àqueles que me fizerem sincera e agradável companhia. Estarei sempre de braços abertos a quem se aproximar com boas intenções.
domingo, 12 de maio de 2013
A Encarnação do Amor Sem Limites
Dedicado à única rainha que reverenciarei até a morte.
Em dias como este, a gente se dá
conta de que nosso cordão umbilical pode até ter sido cortado logo após o
parto, mas a ligação que ele estabelecia não é meramente física. Trata-se de
um vínculo muito maior, que não se corta com o tempo, com a distância ou com
qualquer outra adversidade que a vida venha a apresentar. E se por algum momento
duvidamos de que existe amor sem limite, basta que nos lembremos de que na
sombra de todo ser humano se reflete, luminosa, a imagem de uma mulher sem
igual: a mãe.
As mais belas palavras
são semanticamente ineficazes para traduzir minha eterna gratidão a quem me protegeu
e aguardou minha chegada por longos nove meses, e que ainda hoje me protege com
o calor dos seus sinceros sentimentos. Senhora do tempo, fez-se insubstituível em
meu passado, o é em meu presente e assim sempre será. Seu único defeito é ser
mortal; todavia, me é eterna.
Abdicou da própria vaidade ao perceber as alterações no corpo
decorrentes da gravidez até o momento em que, em mais uma singela prova de
amor, suportou as dores do parto. Dores intensas, presumo, mas proporcionais à
alegria de que desfrutou ao sentir-me em seus braços, todo frágil e assustado. Começava ali uma nova jornada de
muitos sorrisos, lágrimas e amores recíprocos.
Amamentou-me, aqueceu-me, acompanhou meus primeiros passos, ergueu-me e conteve
meu pranto decorrente das inevitáveis quedas. Ouviu minhas primeiras palavras
soarem como música para seus ouvidos, vibrou diante de cada uma das minhas
conquistas pessoais, não economizando sorrisos e emoção. Quando precisou ser
forte para me encorajar, secou minhas lágrimas. Quando não conseguiu, chorou
comigo. Dessa forma, nunca se mostrou alheia a nada do que me ocorreu. É por tudo isso que deixo registrada aqui uma
parte de todo o meu amor e admiração, que só fazem crescer com o passar dos
anos.
E que aqueles cujas mães já não se encontram
entre nós se sintam abraçados e confortados pelo fato de que, se chegaram a
ser as pessoas bem sucedidas de hoje, grande foi a contribuição da mulher que os gerou para
tal resultado. Ainda que não tenham convivido com a figura materna, a
Genética corrobora o que acabei de dizer, bem como a certeza de que a vida
que lhes foi concedida já é uma incontestável prova de amor.
sábado, 4 de maio de 2013
Sob o Brilho do Luar
"Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha
é com o súbito espanto da primeira vez?"
- Mário Quintana
O Sol começa a se recolher e ela vai ganhando evidência. Quer exibir-se majestosa como nunca, inundando a imensidão com sua aura de mistério. A Lua, dádiva divina para deleite dos mortais, fonte de inspiração para os poetas da alma, hipnotiza os apaixonados e ilumina as mais doces serenatas.
É por isso que ficamos ali, inertes, sentados lado a lado sobre a grama de qualquer lugar, por horas a fio. Nenhuma palavra, diante da certeza de que qualquer ruído alheio aos da própria noite pode comprometer a magia do momento. Palavras são desnecessárias. Bastam nossos olhares emocionados voltados para aquela beleza incomparável, nossos corpos quase colados, os sentimentos que nos unem e ela, a Lua, testemunha silente de incontáveis juras de amor.
O fascínio é tanto que ergo um dos meus braços em direção ao céu, em vão. Por um breve momento desejei tocá-la, queria poder ter todo aquele brilho entre meus dedos, ainda que momentaneamente. Queria, sobretudo, poder entregá-la a quem suspira comigo diante de tal espetáculo gratuito. Concluo, porém, que sou pequeno e imperfeito demais para ter tamanha oportunidade.
Depois de ousar obtê-la, pondero e percebo a injustiça de retirar toda aquela beleza do céu que contemplamos: seus outros admiradores ficariam naturalmente inconsoláveis! Melhor deixá-la logo ali, ao quase-alcance de todos. Enquanto isso, satisfaço-me com as estrelas que vejo ao explorar o céu da sua boca em mais um beijo, ainda que de olhos fechados. Isto pouco importa; durante a noite, pouco se vê com os olhos, muito mais com o coração. Agora, é a Lua que nos admira e nos brinda com a sua reluzente cumplicidade.
E quem nos vê de longe assim, na penumbra, tão próximos e com a Lua logo ao fundo, tem a ligeira impressão de que estamos nos amando dentro dela. Um sonho que pode se tornar realidade todas as noites, até o amanhecer.
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